
A escuridão me dissipa. Consome os meus contornos. Integra-me ao nada. De que vale uma sombra em um mundo assombrado?
Perdi-me nessa ausência de cores, assim como o homem a quem eu devia acompanhar.
Já fomos metodicamente unidos. Caminhávamos com as mesmas passadas. Os pés dele terminavam onde começavam os meus. Sua mão direita movimentava-se no ritmo da minha esquerda. Pertencia-me a outra face, verdadeira e desprovida de traços, do seu rosto falso e expressivo.
Nunca aprendi a sorrir como ele. Também não sei o que é chorar. Por mais que estivéssemos grudados, nos momentos de felicidade e de tristeza, jamais partilhávamos quaisquer sentimentos. Contentava-me em observá-lo, pronta para andar ou parar quando fosse necessário.
Desencontramo-nos, contudo, ao apagar das luzes. Sequer a fidelidade mecânica da nossa relação resistiu à estrada que conduzia às trevas. A verdade é que, confiantes em nós mesmos, já não olhávamos para onde pisávamos. Ele virava a cabeça para a esquerda. Eu, para a direita. Demoramos a perceber que estávamos separados desde o tempo em que continuávamos juntos.
O silêncio de outrora nos ensurdecera. Gritos por socorro agora apenas se avolumam como ecos dos anteriores, desencontrados e inaudíveis. Há muitos para berrar. Nenhum para escutar.
Vago, portanto, sem conselhos. Mas como rumar sozinha se sempre me satisfiz em copiar os passos dele? Os primeiros metros de independência forçada foram trôpegos. Os quilômetros, lucidamente melancólicos. Aterroriza-me a consciência de que estagnar é a solução contra as quedas.
De olhos abertos ou fechados, pouco importa no completo escuro onde convivemos, inevitavelmente esbarro em quem está ao lado. O choque doloroso estanca a vontade de sombrear outrem. Aceito a rejeição e viro de costas. Sigo o caminho que não tenho.
Estamos todos, sombras e homens, labirinticamente aprisionados. Próximos e distantes, nenhum de nós deseja encontrar a saída. Basta ter alguém em quem se escorar.
À falta de companhia, apoio-me em um obstáculo. Paro de me mexer. Ainda respiro, embora esbaforida. Ergo as pálpebras para um último e solitário suspiro. Com a face negra voltada para o alto. Onde inacreditavelmente um novo dia promete nascer.
Os raios de esperança são míseros, mas suficientes para cegar quem sempre percorreu o breu. Provo do efeito contrário. O contraste desenha em mim aquele que se foi. A ameaça de claridade me permite retomar a caminhada. Com a confiança para achar e perder um homem outra vez.
Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses
06/08/2009 at 12:10 pm
Adorei a foto, o texto nem se fala…
Helder, você é um escritor nato, um gênio.
ps. Gostou da piada? Hahahahahahaaaaa!!!
XX, Yu
06/08/2009 at 12:14 pm
Helder, o texto me causa um certo conforto, me faz lembrar de que eu não estou tão só quanto quanto eu imaginava…
XX, Fã número 1 do setedoses
07/08/2009 at 2:32 pm
O bom do seus textos é que é difícil caçar só uma frase pra escolher como predileta. Ele todo é muito bom.
E a sombra é muito lúcida, sabe da sina de encontrar, perder homens e conseguir administrar o sofrimento disso tudo.
18/08/2010 at 9:52 pm
Mais um texto impresionante.