* Matéria publicada originalmente no dia 24 de fevereiro, no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo
No aparador da sala da casa dele, uma foto curiosa. Um menino de 2 anos escalando uma estante, segurando-se com a boca a fim de deixar as duas mãos livres para, com elas, poder fuçar em uma vitrola. Influenciado principalmente pelo pai – um aficionado por discos, instrumentos e equipamentos sonoros, e com quem ele mantém um estúdio desde 1997 -, aquele garotinho, que hoje atende pelo nome de Daniel Ganjaman e há tempos trabalha com importantes nomes da música nacional, é um dos produtores mais requisitados do País e promete para este ano pelo menos três discos que, como ele mesmo define, “devem fazer barulho”.
Sonhando com o tempo que lhe falta para trabalhar em um disco seu, autoral, Ganjaman também ataca de DJ e organiza há quase seis anos a festa Seleta Coletiva, no Studio SP, onde se apresentou ontem tocando teclado com o Instituto e convidados como Emicida e Kamau.
Considerando-se muito mais produtor do que instrumentista, na praia do rock, ele se debruça atualmente quase que o dia inteiro para terminar de mixar Alegria Compartilhada, o próximo CD da banda carioca Forfun. Na seara do rap, em abril sai o disco de Criolo (também conhecido como Criolo Doido e que, assim como Emicida e Kamau, despontou nas rinhas de MC”s esmerilhando seus concorrentes com rimas de improviso pulverizantes), produzido em parceria com o baixista Marcelo Cabral, e cujas faixas Grajauex e Subirusdoistiozin já foram apresentadas na internet.
Além disso, ainda em 2011, sem data de lançamento, deve sair um disco póstumo de Sabotage, também produzido por Ganjaman. Em 2003, o rapper convidou o produtor para trabalhar em um álbum de inéditas. Exatamente uma semana depois, Sabotage foi assassinado. Passados alguns anos, Ganjaman trabalhou em cima das músicas e coletou mais material gravado pelo compositor, resultando em 14 faixas. “Nós, do Instituto, estamos trabalhando com os principais parceiros dele e com alguns familiares pra que esse disco seja uma representação digna de todo legado que ele deixou. Não temos data prevista para o lançamento. Já adiamos uns três ou quatro anos e estamos fazendo todo esforço para que este ano seja realmente lançado.”
Aos 32 anos, Ganjaman ainda se veste como um skatista, com as roupas largas e os bonés que identificam a tribo. Embora não ande mais sobre a tábua de madeira com quatro rodinhas, ele atribui ao skate e ao convívio com amigos na época de adolescente um dos pontos determinantes em sua vida para expandir horizontes musicais.
Em uma divisão nada maniqueísta, do pai herdou o gosto pelo rock – e por equipamentos de áudio de qualidade – e da mãe, o interesse por música brasileira, como Milton Nascimento, Elis Regina e Jorge Ben. Pequeno, conhecia uma barbaridade de músicas e com apenas 7 anos vibrava em Iron Maiden, julgando-se um “minimetaleiro”.
Depois disso, veio a adolescência, com forte referência dos amigos. “A gente, com o skate, tinha essa coisa do punk, com uma pesquisa grande. Conheci Beastie Boys, que foi uma abertura de leque, e comecei a ir atrás de uma série de outras coisas, como Sly & The Family Stone, Parliament-Funkadelic, conheci Public Enemy por causa do Anthrax… O skate foi um dos grandes responsáveis por eu começar a me interessar por rap, hip-hop e outros gêneros”, diz Daniel Sanches Takara, que ganhou o apelido aos 16 anos, com o vinil de um de seus “papas”, Lee Perry. “A primeira música do lado A chamava-se Daniel e a do lado B, The Ganja Man. Acabou pegando”.
Na mesma esteira, ainda nos anos 1990, as epifanias musicais se apresentaram para o moleque com o primeiro disco dos Racionais MC”s, M.T. Bronks, Thaíde, Pop Will Eat Itself, Depeche Mode, Nine Inch Nails, Ministry e uma série de descobertas que seriam amplificadas com idas de Ganjaman ao exterior.
Pavimentando caminho. Em 1997, ao lado do pai, Ganjaman abriu o estúdio El Rocha, onde deu os primeiros passos como produtor. Dali não demoraria muito para, a convite do craque Apollo 9, começar a tocar e a fazer a direção musical da banda do cantor, compositor e percussionista Otto, caindo em turnê na divulgação do primeiro disco do pernambucano, Samba pra Burro, em importantes festivais, como o Central Park Summerstage, em Nova York.
No começo de 2000, em contato com o produtor David Corcos, o guitarrista Rafael e o DJ Zé Gonzales, gravou, compôs e ajudou a finalizar o último álbum de estúdio do Planet Hemp, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, saindo em excursão com o grupo. “Quando a gente lançou, já saiu como disco de ouro, 100 mil cópias. Naquela época, já eram os últimos suspiros da indústria fonográfica da forma que se conhecia. Hoje você vê artistas grandes, ícones da música brasileira, vendendo 20 mil cópias. Eu já produzi discos para majors e sei que a forma de se produzir música mudou, alguns se beneficiaram, outros se deram bem mal”, diz Ganjaman.
Dali em diante, ele seguiu colecionando trabalhos importantes, produzindo o disco O Rap É Compromisso, de Sabotage (ao lado de Zé Gonzales), gravando e assinando a produção técnica de Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, dos Racionais, seis faixas do disco homônimo da Nação Zumbi, e Guerreiro e Guerreira, de Helião e Negra Li.
Além de tudo isso, desde os 15 anos organizando eventos na noite paulistana, na época com as mínimas condições de estrutura – o que rendeu muita experiência para que Ganjaman pudesse hoje comemorar quase seis anos como responsável pela festa Seleta Coletiva. Ali, ele se apresenta com o Instituto, criado em 2001 pela parceria com Rica Amabis e Tejo. Foi com eles que o produtor teve também a oportunidade de rodar a Europa em renomados festivais, como Sonar, em Barcelona, e Roskilde, na Dinamarca, e ter acesso a discos que jamais encontraria em sebos brasileiros.
“A primeira vez que fui para a Europa, gastei US$ 1.500 em discos. Antes de ir, pesquisava quais eram as lojas legais e fazia uma via-sacra por elas.”
A soma desses contatos com artistas de diferentes vertentes musicais com essa peregrinação por lojas de discos (hoje Ganjaman tem mais de 3 mil vinis, indo de raridades de Lee Perry, passando por Funkadelic, e chegando a Serge Gainsbourg) fez com que ele abrisse a cabeça e se tornasse uma espécie de camaleão, no melhor sentido da palavra, trabalhando com nomes com os quais mais se identifica na cena independente nacional.
Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses
25/02/2011 at 5:31 pm
Muito legal a matéria. O cara é fodaço.
25/02/2011 at 8:38 pm
Fodástico