0, 1 \01\UTC março \01\UTC 2009


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Yuri Machado publica suas tirinhas no Sete Doses aos domingos e perdeu seu avô esta semana

Tornou-se um viciado em inícios de relacionamentos no instante em que perdeu a única mulher que um dia amou. Percebeu que os três primeiros meses eram suficientes para conhecer e experimentar tudo o que uma vida a dois proporcionava. Para ele, prolongar por mais tempo era perda de experiências e vivências. Nesse breve período, entregava-se com todas as suas forças, prometia amor eterno e fidelidade sem deslizes: tratava a mulher da vez como poucos maridos tratam suas esposas. Findados os três meses – marcados friamente em um calendário que não lhe saia do bolso – rompia a relação sem maiores explicações.

– Olha, já vivemos tudo o que tínhamos para viver juntos, daqui pra frente as coisas só tendem a declinar. Não quero mais lhe ver e nem que você me procure.

Decorou essas palavras e as dizia para todas as suas amantes. Deletava mensagens, números de celulares e e-mails, livrava-se de todas as fotos e presentes e eliminava qualquer vestígio de lembrança. Quando uma das rejeitadas vinha lhe procurar – o que já era parte do processo – ignorava-a com tamanha frieza e habilidade que não deixava espaço para argumentos. Colecionava rancores e corações partidos.

Duas semanas após o último término, envolvia-se com outra pessoa e traçava o mesmo percurso. Fazia questão de em poucos dias torná-la parte de suas intimidades. Deixava uma escova de dente no espelho do banheiro da casa dela, dormia ao seu lado praticamente a semana toda e conhecia familiares e amigos. Invadia a vida, deixava a sua marca e saia pela porta dos fundos.  A intensidade daqueles três meses, diziam as ex-amadas, correspondia a anos de convivência. Apesar de amarguradas, nenhuma delas jamais admitiu arrependimento.

Amava sinceramente todas as suas “vítimas”, com o detalhe de lhes imputar um prazo de validade que não poderia ser quebrado de maneira alguma. Menos de três meses era muito superficial, mais tempo que isso e as cobranças e os sentimentos de posse se amplificavam. Tal cronograma sentimental durou cerca de quatro anos com as mais diversas mulheres e só foi interrompido quando conheceu Raquel.

Raquel era uma morena moderna e sem tempo para bobagens. Relacionava-se apenas com homens que sabiam conversar. Ele a conheceu e de pronto se encantou; só o que não imaginava é que ela sabia de sua fama e que havia iniciado a relação exatamente com o intuito de pregar-lhe uma peça. Passaram o primeiro mês morando juntos na kitinete dela: estavam praticamente casados. Antes da data fatal dos três meses, ela fez uma cena e terminou o namoro sem prestar nenhuma satisfação: atirou as coisas dele pela janela e fez papel de louca.

Ele, desorientado diante de um ato que fugia à mecanicidade dos seus últimos quatro anos, viu-se perdido e completamente apaixonado. Chorou, desesperou-se e correu atrás de Raquel por todos os lugares que ela percorria. Jurou-lhe amor eterno e sem prazos estipulados, escreveu-lhe poemas e enviou-lhe maços de flores. Raquel, surpreendida pela reação e ainda encantada com as lembranças do melhor tempo que já passara ao lado de um homem, aceitou-o de volta e teve certeza de que tudo daria certo para sempre.

Em um ato de loucura, os dois se mudaram para um apartamento na mesma semana, decoraram o ambiente e pintaram as paredes. Uniram-se contra o resto do mundo e passaram a ter uma relação sem declives e com poucos contatos externos. Exilaram-se da dor e já pensavam em viagens, objetivos e filhos. Um mês depois, Raquel acordou e não o encontrou ao seu lado na cama. Levantou-se e leu o bilhete que repousava na mesa de centro da sala:

“Já vivemos tudo o que tínhamos para viver juntos, daqui pra frente as coisas só tendem a declinar. Não quero mais lhe ver e nem que você me procure”.

Raquel sorriu, colocou um calendário dentro de sua bolsa e saiu decidida a iniciar com outro a melhor experiência que tivera em seus 32 anos de existência e em suas quatro tentativas anteriores de relacionamento.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses