Céu nublado
(*) Começaram a conversar como dois homens comuns.

– Parece que hoje vai chover, não? – suspirou o taxista, enquanto freava o seu Santana amarelo diante da faixa de pedestres e centralizava o espelho retrovisor.

Nagasaki permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

– Tempo louco, esse – enfim respondeu o passageiro, incomodado com o mau hálito que o taxista exalava pelos cantos da boca. Não chegara a olhar para a esquerda desde que entrara no veículo. Mas podia imaginar que o homem ao lado tivesse meia-idade, a barba mal-feita, os cabelos desgrenhados e vestisse uma combinação de calça jeans surrada com camisa listrada ou xadrez, deixando os primeiros botões abertos e alguns pelos do peito à mostra. Certamente estava sentado em um assento revestido com bolas de madeira.

Começou a trovejar.

– Você deve estar com pressa, eu sei, mas essa cidade vira um inferno quando chove – alertou o taxista, pronunciando as palavras como pigarros. A luz verde do semáforo já ficara acesa, e o trânsito impedia o carro de avançar.

Nagasaki estava realmente com pressa; a expressão sisuda, o terno cinza amarrotado e as pernas irrequietas confirmavam. Agarrava-se à sua valise preta a cada comentário do taxista, como um escudo contra a interação social. Seus olhos permaneciam vidrados na janela lateral do automóvel. Evitava, assim, encorajar o homem à esquerda a falar e não assistia ao acúmulo de veículos à frente.

Começou a chuviscar.

– A meteorologia não acerta uma, não é mesmo?

O taxista acionou o limpador de para-brisa, e as coxas do passageiro passaram a sacolejar no mesmo compasso das palhetas. Nagasaki contava as gotas que atingiam a sua janela, distraidamente. Em pouco tempo, o vidro inteiro estava molhado. O dia escureceu.

Desviou o olhar para o alto. Uma enorme nuvem negra encobria todo o céu acinzentado. Era densa; quase sólida. Sua forma irregular iluminava-se invariavelmente, à medida que os raios eram lançados do solo.

Começou a tempestade.

– Que merda foi essa? – gritou o taxista.

A chuva ressoara oca na lataria táxi. Cada vez mais intensa. Retumbara como gelo. O barulho que se seguiu após sete minutos de temporal, no entanto, não era de granizo.

Um braço pendia sobre o para-brisa do automóvel, que tivera o capô completamente afundado pelo choque com um corpo. Escorria sangue junto com a água da chuva. Em ritmo frenético, as palhetas do limpador logo espalharam toda aquela mistura rósea pelo vidro.

(*) Texto incompleto. Não continua tão cedo.

(**) Continuou no dia 08/10/2009.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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