Matéria publicada no principal jornal brasileiro no ano de 2012

O medo transformado em oportunidade

Dois anos após o controle da pandemia, orientações contra a gripe suína se transformam em regras e iniciam a formação de uma nova pedagogia para as escolas

No começo, apenas a máscara era suficiente. Com o tempo, a medida adotada foi a de bezuntar o tecido na máscara com álcool gel. "Prevenção nunca é demais", afirma o diretor da escola Aprender para Vencer

No começo, apenas a máscara era suficiente. Com o tempo, a medida adotada foi a de besuntar o tecido da máscara com álcool gel. "Prevenção nunca é demais", afirma o diretor da escola Aprender para Vencer

Tatiane, 17 anos, adentra as dependências da Escola Aprender para Vencer às 8 horas da manhã em ponto. Nesta segunda-feira, além do uniforme, fez questão de vestir a máscara contra a gripe que mais gosta. “Comprei essa máscara na época em que a gripe suína começou e até hoje eu a uso; minha mãe reclama que ela está muito velha, mas não quero nem saber”, comenta. Estampada com a imagem dos integrantes do Fresno, sua banda preferida, a máscara ainda parece mesmo nova. “Comprei no fim de semana uma do Chico Buarque, mas essa só vou usar quando eu entrar na faculdade”.

A primeira coisa que Tatiane faz ao chegar à escola é besuntar as mãos de álcool gel e esfregá-las por exatos 30 segundos. “Essa foi uma recomendação básica que a diretoria propôs no começo da terrível pandemia; vou continuar seguindo, pois minha mãe disse que minha saúde melhorou muito desde então”. Outra regra aplicada e que foi amplamente discutida entre pais e professores é a proibição dos alunos de se beijarem e se abraçarem nas dependências da escola. “No início da gripe, não colocamos como regra, mas as crianças que seguiam essas recomendações passaram a ter menos doenças, faltavam menos e, incrivelmente, tiravam notas melhores. Outra decisão sábia foi a obrigatoriedade da máscara, que dificulta os beijos e faz com que aconteçam menos conversas paralelas durante as aulas”, comenta Heitor Ferraz, diretor da Aprender para Vencer. Ferraz explica que alunos flagrados se acariciando no interior do prédio são suspensos. “Três suspensões e o aluno é convidado a se retirar da escola; eles não podem insistir neste tipo de comportamento”, explica.

Desenho encontrado com um aluno que foi expulso do colégio. "É preciso reprimir os instintos mais primitivos", é incisivo o diretor.

Desenho encontrado com um aluno que foi expulso do colégio. No papel do garoto, a frase "Queria poder ir aí. Muito." No papel dela, "Eu também queria". " "É preciso reprimir desde cedo os instintos mais primitivos", é incisivo o diretor.

Os pais parecem satisfeitos com os resultados alcançados pelas leis. Maria Anice, mãe do ex-aluno Julio Anice, afirma que as regras impostas pela gripe suína transformaram a vida de seu filho. “O Julio era um aluno um pouco difícil, mas depois das regras ele começou a conversar menos e a se concentrar melhor; passou em primeiro lugar no vestibular de Bioquímica da USP e até saiu no jornal”, conta, com brilho nos olhos, a mãe coruja. Ferraz se lembra com orgulho do caso de Julio e acredita que uma das leis mais polêmicas foi decisiva para a melhora do aluno. “O Julio tinha mania de matar aula para ler romances e poesias; desde que exigi o fechamento da biblioteca ele passou a se superar nas notas e colocou como meta estudar na melhor universidade do País”. A biblioteca da Aprender para Vencer foi lacrada em 2010 como tentativa de evitar a concentração de pessoas e a consequente disseminação da pandemia. Na época, muitos professores foram demitidos por serem contrários à ação. “Nesta época mudamos o corpo docente e trouxemos professores realmente comprometidos com o sucesso”, diz o diretor.

Sem afetos, com sucesso

As vagas para matrículas na Aprender para Vencer estão lotadas para os próximos cinco anos. A revista Você S/A Jr. aponta o colégio como um dos dez melhores do mundo para a formação de executivos bem sucedidos. “O mercado de trabalho exige pessoas que saibam controlar suas emoções e seus afetos, a Aprender para Vencer tem se destacado na formação de profissionais conscientes: eles sabem que é preciso ter um distanciamento afetivo de seus concorrentes para obter êxito em seus negócios”, resume Paulo Coimbra, da consultoria Nascido para Vencer, especializada em identificar talentos infantis para grandes corporações. Coimbra cita o caso de Sérgio Camargo, aluno de oito anos que já tem propostas de duas empresas multinacionais. “Identifiquei o talento e o Sérgio deve começar em alguma das companhias quando completar 18 anos. Estamos o preparando desde já. No próximo mês ele fará um curso de “Gestão Prática da Brincadeira Infantil” nos Estados Unidos. Os pais dele estão muito animados”.

O dia da consciêntização: todo ano Ronald Mcdonald faz a palestra "Marketing para Entreter a Criança". Direto de Nova York, o palhaço dá uma mostra do curso "Teoria Prática da Brincadeira Infantil"

A semana da conscientização: todo ano Ronald Mcdonald faz a palestra "Marketing para Entreter a Criança". Direto de Nova York, o palhaço dá uma mostra do curso "Gestão Prática da Brincadeira Infantil"

Para Coimbra, as leis consolidadas da época da gripe suína estão sendo fundamentais para o bom andamento dos preparativos para a carreira de Sérgio. “Ontem o Sérgio me mostrou a máscara nova que ele comprou, todo animado, mas me disse que às vezes sente falta de um maior contato com os amigos. Mesmo assim, ele está consciente de que as regras da escola buscam o melhor para sua carreira. É um bom menino”. Coimbra conta que uma das decisões mais felizes da direção foi continuar exigindo que os alunos se sentassem 100 metros longe um dos outros. “É preciso construir a individualidade e demarcar território: essas são chaves para o sucesso futuro”, ensina o consultor.

Resistências

Apesar do sucesso dessa nova pedagogia empresarial, muitos especialistas a contestam e temem por uma desumanização dos alunos. “A gripe acabou e os alunos continuam usando máscaras e entupindo suas peles de álcool gel. Parece-me estranho que os pais concordem com isso; mesmo que seus filhos apresentem notas melhores, não faz sentido”, comenta o educador Afonso Nigro. Juarez Riquiero, pai da aluna Suzana Riquiero, rebate as críticas. “Colocamos nossos filhos na escola para que eles aprendam, não para que fiquem se beijando e conversando nos corredores. E a minha filha adora a máscara. Semana passada comprei pra ela uma estampada com a primeira estrofe da letra de “Garota de Ipanema” (cantarola “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça”). É minha canção preferida e quero que a Suzaninha também tenha contato com coisas bonitas e humanas; mas para tudo tem sua hora”, analisa.

Cartaz pendurado nos corredores do colégio para incentivar a prevenção da gripe suína. "Apesar da pandêmia estar controlada, optamos por deixar a propaganda: não podemos deixar de ter medo do perigo", conta o diretor

Cartaz pendurado nos corredores do colégio para incentivar a prevenção da gripe suína. "Apesar da pandemia estar controlada, optamos por deixar a propaganda: não podemos deixar de ter medo do perigo", conta o diretor

O dermatologista Sandro Petrarca concorda com as leis, mas avalia o risco do uso excessivo do álcool gel. “Tornou-se um hábito perigoso. Muitas das crianças lavam as mãos até dez vezes por dia, algumas besuntam todo o corpo com a substância e isso pode ressecar a pele”, comenta. É o caso de Juliana Lima, estudante que foi hospitalizada após engolir o álcool por achar que o efeito seria mais eficaz. Os pais, no entanto, explicaram depois para a filha como se faz o uso correto. “O álcool é importante, pois evita outras contaminações invisíveis e sua utilização deve ser feita com orientação da direção da escola. Não existe perigo medicamente constatado”, afirma Laílton Santos, dono da mega fábrica de álcool gel Contragripe, que apresentou crescimento de 600% no último ano.

Outro cartas pendurado nas paredes da escola: a pequena Maíra foi a única vítima da gripe suína. "A morte dela deve servir de exemplo para os outros alunos seguirem as regras", comenta a mãe da menina, que aparece ao lado dela no cartaz

Outro cartaz pendurado nas paredes da escola: a pequena Maira foi vítima da gripe suína. "A morte dela deve servir de exemplo para os outros alunos seguirem as regras", comenta a mãe da menina

Apesar das resistências, os números comprovam que as novas regras funcionam na prática. As faltas caíram 20% e as notas melhoraram consideravelmente. Além disso, 80% dos alunos da Aprender para Vencer entraram nas melhores universidades do País nos últimos dois anos. “Neste período tivemos alunos entre os primeiros lugares nas faculdades mais concorridas do Brasil. É um trabalho árduo, que muito orgulha a todos nós e aos pais. Aqueles que reclamam que me desculpem, mas os números nunca mentem: formamos os melhores”, finaliza o diretor Heitor Ferraz.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos e tem certeza que muita gente acharia normal a publicação dessa reportagem em 2012. O absurdo, muitas vezes, está nas entrelinhas e é quase imperceptível para quem não pensa

Agradeço ao Yuri pelas ilustrações

Anúncios