Essa história é baseada em uma conversa acontecida há alguns anos entre um professor e sua estudante de mestrado. Ele era o especialista mais respeitado de sua área de biologia. Viveu para fazer pesquisa. Passava mais de 16 horas por dia entre laboratórios e bibliotecas, inclusive aos fins de semana. Protagonizou os avanços mais importantes do seu departamento. Sua mulher falecera fazia um ano, depois de 15 de casamento. Não tinham filhos. O professor, pesando suas perdas e ganhos, contava sobre a conseqüência de preencher a maior parte de sua vida com aquele tipo de dedicação ao trabalho.

 – Sim. Consegui tudo isso. Para que? Cheguei em casa tarde da noite, como sempre, e encontrei minha esposa desmaiada na cama. Tudo aconteceu muito rápido. Desesperado, chamei uma ambulância e, em menos de duas horas, eu estava conversando com o médico responsável enquanto ela continuava inacessível na UTI:

 – Infelizmente não tenho boas notícias. O quadro dela é gravíssimo. O fígado e o estômago estão comprometidos de modo irreversível. Por hora, estamos fazendo o possível para evitar a tendência de falência múltipla de outros órgãos. Mas as perspectivas não são boas. Preciso que o senhor seja bastante sincero neste momento.

 – Meu Deus… sim, sim, do que o doutor precisa? – eu estava em choque.

 – Há quanto tempo a sua mulher é dependente de álcool?

 – O que?

 – Senhor, sua mulher tem um quadro avançado de cirrose. Trata-se de um caso tipicamente desenvolvido pelo consumo excessivo e prolongado de álcool. Pela dependência. Os exames laboratoriais que fizemos acusaram altas concentrações de álcool no sangue ainda no dia de hoje.

 – Não… não sei o que dizer.

 – Apenas a verdade. Sei que é uma situação delicada, mas todas as informações de que eu dispuser a respeito podem nos auxiliar.

 – Não! Digo, não sei o que dizer sobre isso. Não é possível. Ela não pode ser alcoólatra.

 – Senhor, por favor, preciso da sua ajuda. Faça um esforço. Vocês dois moram juntos, correto? A dependência de álcool gera alterações de comportamento, como sonolência, indisposição, dificuldade de comunicação, de articulação, às vezes agressividade. Também diminui a disposição sexual. Nada disso lhe chamou a atenção?

 – Nós dormimos em camas separadas. Chego muito tarde em casa. Normalmente saio para trabalhar antes que ela acorde também. Achamos que seria melhor assim, para não incomodá-la Minha mulher consome álcool sim. Mas em eventos, festas de família, almoços de fim de semana. Não pode ser possível que isso tenha causado todo este estrado de que você esta falando doutor!

 – Não mesmo. Olhe, pela debilidade do quadro, ela precisaria ter consumido alcool diariamente em grandes quantidades, por um período de – eu diria – alguns anos.

 – Diante da minha perplexidade, o médico se convenceu de que eu não estava escondendo nada por vergonha, ou coisa parecida. Simplesmente não tinha idéia do que se passava. Desistiu da entrevista, que apenas serviu para piorar o meu desespero. Minha mulher faleceu nas 24 horas seguintes.

 […]

 No final da semana, no sábado, voltei para casa e comecei a arrumar algumas coisas pela manhã. Investiguei o quarto dela. Sua cama ainda estava desfeita. Atrás da cabeceira, muito mal escondida, encontrei uma garrafa de conhaque, vazia para mais da metade, e um copo, que parecia nunca ter sido lavado. Comecei a chorar compulsivamente por alguns minutos. Enchi o maldito copo até a boca e arrebentei a garrafa contra a parede. Tomei o conhaque, devagar, durante um tempo que pode ter sido de uma hora. Foi a primeira vez que bebi de manhã. E fiquei ali no quarto, deitado na cama, sozinho, até chegar o domingo, e até que ele acabasse. Vazio como um saco.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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