Com o cigarro pendurado no canto da boca, encaçapou a última bola da mesa e piscou com ironia para seu adversário como quem diz “passa amanhã pra ver se tem pão velho”. Virou o copo de Cinzano num único gole e com as duas mãos ajeitou o paletó impecável. Deu meia volta e, como era de costume, exibiu a todos sua categoria inigualável de fazer duas coisas ao mesmo tempo: com a mão direita sacou do bolso o celular e, enquanto dialogava, com a mão esquerda levantou o indicador para o sujeito do bar, sinalizando mais uma.

Era um verdadeiro malabarista social. Balbuciava sussurros melosos ao telefone para a esposa dando a impressão aos presentes de que estava passando a perna em um traficante do outro lado da linha ou arrancando o couro de um subalterno da firma.

– Oun, meu docinho de côco. Você sabe que é minha ternurinha, minha flor do campo, né?, gemeu lustrando o ego da mulher.

Era como se estivesse embalando um ursinho de pelúcia no colo, mas, para os amigos, parecia estar costurando as tripas de um pitbull com uma agulha de crochê. E a mesma magia se exercia sobre a esposa. Lá do botequim, tirava cera do ouvido com a unha do mindinho mais comprida e coçava o saco sem cerimônia enquanto a mulher tinha a sensação de estar trocando carícias e juras de amor com um homem mais elegante que o maître do restaurante mais sofisticado do planeta.

O jogo de esconde-esconde funcionava perfeitamente dentro dos eixos até a noite em que a cônjuge, acometida por uma insônia perturbadora, resolveu dar uma passadinha na farra do maridão. Sorrateira, falava com ele ao celular como se estivesse deitada na cama lendo o Novo Testamento, quando, na verdade, estava sentada em uma mesa escondida no fundo daquele inferninho enevoado pela fumaça dos cigarros que se misturava ao gelo seco.

Disfarçada, contracenou verbalmente com o marido por mais de meia hora, tempo suficiente para perceber que ele era uma espécie de réptil, que se aclimatava com extrema naturalidade a dois habitats completamente distintos. O pior de tudo é que ela não entendia o porquê da desfaçatez de seu homem. Os amigos não eram machistas, nem reacionários. E ele era o único a agir daquela maneira rude.

Pagou a conta a partiu para casa. Ao chegar, ligou novamente para o marido para certificar-se de que ele demoraria a chegar, assim teria tempo de tomar um banho para tirar a nhaca e a urucubaca do bar e ficar cheirosinha para o esposo. Deitou-se decidida a revelar ao tratante que desvendara toda aquela farsa. Esgotaria o alfabeto com xingamentos contra o larápio e, como golpe de misericórdia, finalizaria com um arroto cavernoso.

Porém, quando o marido chegou, as palavras ficaram entaladas na goela da mulher. Definitivamente, ele não era um iniciante. Revelou um belo e surpreendente ramalhete de flores que escondia com as duas mãos atrás das costas, e ligou o toca-discos com a gravação original e antológica de Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro, o Braguinha), na voz do maior intérprete de todos os tempos, o “Cantor das Multidões”, Orlando Silva.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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