– E o que o senhor tem feito com o tempo livre aqui no Rio?

– Ah, eu gosto de passear no calçadão, tomo uma água de coco, essas coisas, e tenho passado bastante o tempo no meu apartamento, pensando.

– Mas, o que o senhor faz tanto no seu apartamento? É ruim ficar assim sozinho.

– Não. Eu gosto de ficar ali, pensando.

– Mas, como assim? O senhor fica ali, sozinho, sem fazer nada?

– É. Pensando.

– Sobre o que?

– Sobre qualquer coisa. Ontem fiquei imaginando o que é isso que os cientistas chamam de matéria escura. É uma coisa que tem a maior parte da massa do universo, a ponto de ser a principal responsável pelo desvio da luz ao passar por várias galáxias, mas não interage conosco. Tem mais desse negócio no universo do que a matéria que faz as pessoas. E pode ter uma tonelada atravessando a gente agora. Sem a gente perceber. Desvia a luz, distorce o espaço, mas não tromba com a gente. Como se fosse um fantasma. Isso é muito louco.

– Ah… entendi… E o senhor fica lá, sem TV, um rádio, internet? Só parado?

– Isso. Só comigo.

– Tipo assim? Olhando pro teto?

– É. Mas eu não vejo as paredes. Fico só comigo, pensando.

– Não vê as paredes doutor? Com todo o respeito, mas logo um engenheiro como o senhor, sentado, sem fazer nada, e sem enxergar a parede… Isso sim é que dá o que pensar doutor!

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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