No meio das funções diárias, acometeu-lhe um desagradável cheiro de banana. É certo que, quando começou, não o incomodava, pois a fruta não exala assim o pior dos odores. Ao menos não o faz quando está em condições adequadas para o consumo. De qualquer maneira, não o havia abandonado a sensação de estar impregnado por aquele perfume indesejado. Correu ao banheiro e lavou as mãos, esfregando ambas com um certo rancor, como se as palmas, os veios e cicatrizes escondessem deliberadamente o maldito cheiro de banana.

 

Voltou aos afazeres, mandou dois ou três e-mails, mas aquilo não cessava. Era como se uma rebelião do próprio organismo tivesse retrabalhado a cognição cerebral para interpretar todo e qualquer odor como aquele proveniente da banana. Cheirou as mãos recém-lavadas e ela estava ali. Na verdade, estava em tudo. A camisa e seus botões, os colegas, o elevador, o filé de frango e o feijão carioquinha do almoço, a demissionária abraçada com pesar e até um anjo caído que perambulava ali por aquelas horas. Tudo cheirava à nanica.

 

Sentiu-se impotente diante de um inimigo tão prosaico e poderoso. Desesperado, esfregou seu rosto com o sabonete disponível e cogitou se lambuzar com o álcool gel, o que felizmente não fez. A síndrome persistiu e ele negociou uma ajuda médica com o livro do plano de saúde. Marcou a consulta, compareceu e, para seu azar, ninguém o levou a sério, nem mesmo o próprio médico. Gargalharam, médico e equipe. Recebeu a receita que indicava a administração de uma pomada argentina para insensibilizar o nariz.

 

Voltou para casa ansioso pela efetividade do creme importado. Tiritavam na cabeça drásticos pensamentos do que fazer em caso de outro fracasso, bastante iminente. Não respirou profundamente ao abrir a porta, assim doía menos. Foi então que a encontrou deitada no sofá, plácida e eloquente como o silêncio. Fitou-o por prolongados instantes, dedicando-lhe ternura para contornar o evidente estágio de desconforto em que ele se encontrava. Antes de ele interromper o hiato com lamentações, apontou-lhe o dedo indicador, rotacionando-o o pulso na sequência para flexionar a primeira falange, no gesto característico do íntimo chamamento. Ele correspondeu e inspirou apenas o suficiente para adquirir o fôlego necessário ao beijo que obviamente se seguiria.

 

O gosto era de sonho. Abriu os olhos as vezes necessárias para tentar decifrar os códigos do universo onírico que ele experimentava tão profundamente. Passaram-se os minutos de uma vida repleta. As bocas fundidas forjavam notas docemente ácidas. Sem receio desta vez, sentiu vontade de inspirar profundamente a atmosfera de encanto instalada naquela sala. Para o seu deleite, acariciou-lhe as narinas o aroma da dama-da-noite.

 

Estava salvo. Impressionada pelo regozijo do parceiro, ela não se conteve e perguntou, cantando as sílabas: “Por que você me cheira tanto?”.

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses e ontem sentiu no mundo um cheiro bem forte de banana

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