Os meninos embolorados cultivavam o mofo de suas almas no quarto gélido assim mantido pela babá. Ele, seis anos; ela, nove. Saíam macambúzios pela porta todas as manhãs rumo à escola que não estava preparada para lhes ensinar novidades. A reclusão e a carência de contato com o desconhecido reduziam o ritmo das sinapses, dos sonhos, das alegrias.

A vida era um pão seco.

O requeijão e a geléia apareceram transfigurados no vizinho, um músico aposentado – “Se é que isso existe!”, pensavam. Ele, 57 anos, havia sido o maior. Enormes shows, grandes turnês, incríveis garotas, uma prolífica carreira e uma igualmente grande e vertiginosa queda nas hipérboles que o acometeu depois da morte de seus três filhos e a esposa. Atravessavam a rua para buscarem o carvão da carne de um domingo, quando o céu matou o sol em um golpe de misericórdia e a chuva caiu, seguida pelos quatro amores daquele homem, atropelados por uma picape desgovernada.

Daí para então, o músico cumpria o ritual de ligar sua Stratocaster pelas manhãs. Tocava apaixonadamente “Good Day, Sunshine”, canção dos Beatles que embalou os primeiros dias do resto de sua vida com a esposa. “Eu preciso rir e, quando sai o sol, eu tenho algo por que rir”, dizia a letra.

Os meninos acompanhavam enternecidos a cena pelas janelas e conjecturavam a respeito das dores e amores daquele homem sensível. Assim ocuparam seus dias, até outro domingo em que a música cessou. Da janela, não viam nada além das cortinas e um silêncio sepulcral. Souberam do ocorrido e levaram flores colhidas do próprio jardim para atirar no caixão.

Fazia um sol de lascar.

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses e acha que chuva atrasa até post

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