Carlos Manuel

Carlos Manuel era tão bom com as mulheres que bastava um olhar para conquistá-las e duas palavras para fisgá-las para sempre. Conhecia a alma feminina como poucos: sentia o que elas sentiam, previa o que elas pensavam e se aproveitava para confortá-las e acariciá-las. Olhava para elas e sabia exatamente as palavras macias que precisava falar e a força masculina que era necessário aplicar. Era um homem que utilizava elegância e virilidade nas proporções exatas, sabendo usar diferentes graus de intensidade física e emocional para enlouquecer qualquer mulher. Além disso, era conselheiro, ouvia com paciência e era um amante constante e retumbante. Levava-as ao orgasmo apenas ensaiando frases sussurradas cheias de palavras açucaradas.

Seu dom transformou-se em vício quando percebeu que suas investidas nunca falhavam. Entregou-se ao hábito de colecionar mulheres por onde passava pela consciência de que todas elas lhe entregariam a alma sem vergonhas ou alardes. Perdeu o controle e passou a investir em moças casadas, solteiras, virgens e inanimadas. Sua voracidade era engoli-las por inteiro e, após consumir todas as suas essências, cuspi-las com desprezo e frieza. Tapava seus próprios vazios com qualquer peneira que lhe parecesse esteticamente adequada. Dessa forma, mal sabia com quem estava, qual era o nome ou as características próprias: importava-lhe que fossem belas mulheres e que tivessem algo a lhe acrescentar nas técnicas alcoviteiras. Queria tê-las dentro de si para, com o conteúdo adquirido, partir para a próxima investida. Sabia que um homem que coleciona conquistas não precisa de esforços para fazer sua próxima vítima.

O primeiro problema de Carlos Manuel ocorreu em uma manhã de terça-feira quando ele acordou e se deparou no espelho com o reflexo de sua própria mãe. Olhou bem, balançou a cabeça, passou as mãos nos longos cabelos ruivos e percebeu que realmente havia se transformado em sua genitora. O detalhe é que ela estava jovem, linda, com um corpo estonteante e uma vitalidade inédita no olhar. Percebeu que ele, agora, era sua mãe na idade exata em que ela engravidou dele próprio. Assustou-se com o reflexo, mas logo escovou pacientemente os longos cabelos vermelhos e sorriu. Sim, no fundo estava feliz e não entendia bem os motivos.

A mudança, porém, era apenas física e estética. Seus desejos masculinos e sua lábia com o sexo oposto continuavam afinados e bem dispostos. Abriu o armário, procurou a roupa de uma das mulheres que se deitaram em seu leito nos últimos meses e escolheu um vestido que sabia que sua mãe iria adorar. Saiu para a rua com a certeza de que tudo o que queria era experimentar um novo jeito de fazer sexo com as mulheres. Não mudara nada, era o mesmo crápula transvertido em corpo materno. A beleza ruiva e juvenil de sua mãe, aliada ao seu falar próprio, charmoso e encantador, ajudou Carlos Manuel a conquistar as mais belas lésbicas que encontrava pelas ruas e casas noturnas da cidade. Percebeu que o sexo entre iguais era tão bom quanto o de antes e lhe servia para o mesmo propósito.

O segundo grande problema de Carlos Manuel ocorreu três semanas depois de sua estranha transformação: ao se maquiar em frente ao espelho, percebeu que estava absolutamente apaixonado por si mesmo. Ou melhor, pela sua própria mãe. Olhou novamente e percebeu que não sabia mais quem era a figura do reflexo. Sua própria silhueta se fundira à imagem de sua mãe, à personalidade dela, aos anseios e aos dizeres, às qualidades e aos defeitos. Percebeu que ele e sua mãe, na realidade, eram a mesma pessoa. Percebeu que sempre fora apaixonado por si mesmo. Ou seria por sua mãe? Não sabia mais o que pensar. Sentiu-se perdido, tonto e carente.

Naquela noite resolveu que não iria sair de casa. Deitou-se na cama, encolheu-se o máximo que podia e abraçou a si mesmo. Observou os cabelos ruivos que caiam no ombro e percebeu que, na verdade, abraçava sua mãe. Apertou-se ainda mais, pressionando os braços no ventre rígido e o sentindo com um misto de amor e ódio. Sua vontade era entrar em si mesmo e perder-se para sempre. Sentiu-se, pela primeira vez, completo. Sua carência se dissipou por alguns instantes e sua impressão era de que tinha encontrado uma peneira sem furos para tapar de vez seu vazio. Adormeceu feito um bebê, em paz e satisfeito, embalado por seus próprios braços e pelos braços imaginários de sua mãe.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

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