Daqueles em que se sente que nada existe para ser feito lá fora, nem dentro, apesar do tempo firme e da urgência do fim de semana.

 

– Alô?

– Doutor, tô com o seu filho aqui.

– Quem é?

– Você não tá entendendo. Tô com o seu filho e vou meter uma bala na cabeça dele.

– Mas o que tá acontece…?

– Pai, sou eu, pai! Me botaram num carro aqui, me sequestraram e ele diz que vai me matar. Faz alguma coisa, pai, faz alguma coisa, ele tá com a arma na minha cabeça!

– Doutor, é 50 mil. Agora! Tem que resolver agora, não tem que esperar nada, vou furar a cabeça do teu filho.

– Mas olha só. Eu não tenho esse dinheiro. Sou aposentado, não tenho como te dar esse dinheiro todo.

– Então vou matar ele.

– Calma, calma. Fala com a minha…

Cai a ligação.

 

Sufocado pelo desespero, o pai liga para a polícia. O telefone toca uma vez. Quando ele explica, o atendente avisa que pode se tratar de um trote.

– O sr. tem certeza de que era seu filho?

– Acho que era a voz dele, sim.

– Acho não. Se fosse a voz dele você teria certeza, sr. Tente ligar para o seu filho e localizá-lo.

– Ok, obrigado.

– Se não encontrá-lo, nós vamos atrás.

O pai tenta achar o filho e prende a respiração quando a outra linha toca. A mãe atende.

 

– Alô!!

– Doutora, seu filho vai morrer agora!

– Pelo amor de Deus, se acalma, moço…

– Vamos marcar um lugar. Aí vocês dão a grana. É 50 mil, não quero saber.

Seguem as ameaças. O pai tenta o celular. A resposta é a mensagem da caixa postal. Mais desespero, o fôlego rareia. A mãe só chora na outra linha, a voz grave a aterroriza, entrecortada pelos gritos de um garoto de uns 20 e poucos, exatamente como seu filho. Não há mais sinais de que seja mesmo um trote.

 

A ligação cai novamente. O pai tenta o telefone fixo. Três toques.

 

Alguém atende e desfaz o temor. Ele está em casa, dormindo no quarto, celular desligado. Após ouvir a voz do filho, a traqueia do pai recupera o fluxo de ar, a tensão é regada pela endorfina e o corpo aos poucos se aclimata novamente ao sábado renovadamente um dia descompromissado.

 

E o filho desliga o telefone para ir ao shopping.

 

Ricardo Torres escreve às terças para o Sete Doses

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