Ao contrário do que o vulgo pensa, o elogio é a âncora do ego. Só serve para maquiar e ludibriar as imperfeições e incongruências do nosso caráter.

Tendo essa balela profunda e barata como seu guia moral, Maciel havia decidido surpreender o mundo que o cercava. A parir daquele dia, na contramão da cartilha dos bons modos, passaria a retribuir elogios com insultos violentos.

Ao acordar, ganhou logo um “bom dia, tesouro” de sua mãe. Respondeu: “não enche o saco, sua pistoleira. Você não tem tesouro nenhum, não passa de uma mulambenta”.

Na padaria, a mocinha que servia os pães sussurrou: “nossa, Maciel, como você está bonito hoje… Não quer levar esse bombocado aqui?”. Impiedoso, ele retrucou: “Você não se enxerga, não, sua bigoduda? Volta pro seu serviço que as roscas estão queimando”.

No trabalho, Maciel pegou pesado e aos impropérios verbais somaram-se as agressões físicas. Depois de já estar com os ombros doloridos de tantos tapinhas de cumprimentos que havia recebido dos colegas de setor, foi sufocado por um forte abraço do chefe Afonsinho Almofadinha: “Maciel, muito obrigado por tudo. Graças a você, as vendas desse mês quadruplicaram!”. Antes que Maciel começasse a achincalhar Afonsinho, o patrão lhe tascou um beijo na bochecha. O funcionário, indignado, poupou a saliva. Com força e ira descomunais, pegou o chefe pelo colarinho e o arremessou 15º andar abaixo.

Os proletários, incrédulos, nem ousaram conter o assassino, que partiu em desabalada carreira pelas escadarias de emergência. Durante todo o trajeto, pensava: “puta que pariu, a polícia vai estar lá no térreo me esperando”. Para seu espanto, nem sinal das autoridades nas redondezas. A partir daquele momento, considerava-se um fugitivo da justiça, um fora-da-lei.

Na manhã seguinte, a cama em poças. Havia se tornado uma rotina: Maciel acordava de sonhos violentos e seguia direto para o banho para lavar a alma e tirar o suor que o deixava grudento e asqueroso. Depois de quatro meses de devaneios oníricos preocupantes, Maciel levou os queixumes à terapeuta.

Deixou o consultório com o corpo mais leve. Enfim havia entendido que para enfrentar os problemas que o afligiam a melhor saída não era meter chumbo nos inimigos, mas sim tratá-los com o rolo compressor do escárnio e do humor. Chegando em casa, abriu o armário, revirou os empoeirados discos de vinil e começou a estudar a obra de seu novo mestre. Levantou e abaixou a agulha da vitrola e quase morreu de riso e espanto com a genialidade de Rei do Gatilho, do venenoso Moreira da Silva.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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