*Baseado em um diálogo real

Sentada na cadeira, contava histórias com a voz desgastada e oscilante. Atrapalhava-se em alguns devaneios, perdia o fio da meada, mas sempre retornava ao enredo com a memória fresca. As costas de suas mãos, enrugadas pelo tempo, movimentavam-se freneticamente enquanto ela narrava. Seus olhos, pequenos, quase fechados, permaneciam com uma umidade constante nos cantos, como uma lágrima prestes a ser formada e derramada. Vestia-se com um terno mostarda – incrivelmente moderno para seus 90 anos -, calçava uma sandália com tiras grossas e gabava-se de seus colares e pulseiras brilhantes.

Todos em volta da mesa prestavam atenção em cada minúcia de sua fala. Ali, compenetrada, contava seu fascínio perante o último suspiro da morte. Contava como seus pais morreram em seus braços e ela ouvira o mesmo e irremediável suspiro. “Precisa ver, o suspiro dos dois foi igualzinho”, repetia. Contava como fora duro testemunhar aqueles suspiros e como ela, a partir de então, passara a persegui-los. Tornara-se uma viciada. Era reconfortante estar presente no momento crucial.

Cada vez mais emocionada, narrava a vez em que passara por um acidente de moto e aproximara-se da vítima à beira da morte. Ficou próxima dele, pegou em suas mãos e ouviu mais uma vez aquele mesmo suspiro. Não importava se homem, mulher, voz grave ou aguda: o som, doce, era sempre o mesmo. Consolador, reconfortante, libertador. Certa vez, um vizinho solitário ficara muito doente. Fez questão de cuidar dele até o último momento.

Mas não era apenas ela quem perseguia o último suspiro. Ele também começou a persegui-la. Seu filho caíra de joelhos em seus pés após um ataque cardíaco. Sabia que o destino seria fatal, colocou o ouvido próximo dos lábios dele e ouviu mais uma vez aquele som encantador. Só depois sofria, e sofria muito, com todas aquelas perdas. Antes, porém, nada lhe importava: apenas o som etéreo e encantador. Perdera avós, pais, alguns filhos, primos, amigos. Ouvira o último suspiro de muitos e sentia-se privilegiada por isso.

Sua grande frustração era perder aquele momento. A irmã morrera sentada na cadeira de balanço, totalmente só, e demoraram horas para descobrir. “Morreu de velha, desligou”, lembra. Ela estava na cozinha, passando o café, e não ouviu o suspiro solitário da irmã. “Da mesma forma que nascemos e vivemos, morremos: sozinhos”. Hoje, a morte que mais a intriga é a dela mesma. “Será que ouvirei meu último suspiro?”.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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