Depois de tanto tempo sem saber o para cima e o para baixo, respirando e engolindo um tanto de água entre longos períodos de afogamento, resolveu que mais de dois anos e meio escoando na velocidade da tormenta tinham sido o suficiente. Não havia mais energia para enfrentar aquela batalha diária, que lhe consumiria até os ossos. Até o fim de sua vida. Agüentou mais um mês de tempestade, até que uma última onda violenta se quebrou, já bastante perto da praia, e a água se espalhou com cada vez mais vagar. Refluxos das correntes o empurraram gentilmente para a terra. O mar transbordou para deitá-lo sobre a areia, e ele pode voltar para casa.

Seu corpo e mente ainda se ressentiam da experiência. No dia seguinte, resolveu passear ao longo de todo o dia, para observar animais em exposição. O lugar, iluminado por um sol ameno, era tocado por uma brisa quente e vagarosa. Não distante, havia um casal de macacos Gibões em uma ilha projetada para abrigá-los no meio do lago principal. A fêmea perambulava preguiçosamente pela grama. O macho, de olhos quase fechados, permaneceu sentado em um toco de árvore, com os braços apoiados sobre a barriga saliente. O homem se sentou em um banco, pensando que tinha toda a disponibilidade para descobrir por quantas horas o bicho conseguiria permanecer descansando ali, caprichosamente equilibrado sobre o toquinho. Não agüentou nem trinca minutos antes de ser vencido pelo escolado macaco, que há muito tempo havia se livrado daquela comichão inútil que nos faz mover descontroladamente de um lado para o outro.

O rapaz andou por todo o zoológico. Encontrou animais que até pareciam felizes, e outros tantos bastante tristes. A vida invariavelmente se apresentava lânguida, descompromissada, sem pressa. Pequenas experiências e curiosidades se sucederam durante o dia. Suricatas se revezavam atenta e disciplinadamente na vigilância de seu espaço, como se não estivessem cercados por muros intransponíveis, nem fossem vizinhos de tartarugas e pássaros inofensivos. As azuis eram aparentemente as únicas entre as araras que formavam casais e se reproduziam com sucesso em seus viveiros. Mas não existem mais na natureza. Um orangotango que vivia sozinho fitou o homem com se o reconhecesse. Aproximou-se, encostou a face no vidro que os separava, e utilizou a mão como uma aba de boné para afastar o reflexo do sol e enxergar melhor seu observador. O tratador disse que o animal agia assim quando gostava muito de alguém.

Enquanto circulava entre as jaulas, pensava o homem como, naquela janela de calmaria, sua vida também estava suspensa, igual à dos animais do parque. Tudo o que ele fez e desejou o acompanhava, flutuando levemente, sem lhe afligir ou impulsionar. Logo chegaria a hora de novas escolhas e caminhos. Mas agora era o momento de contemplar o tempo e o mundo. Ainda faltava visitar o hipopótamo e os grandes felinos.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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