Cama

Juliana e Matheus se encontraram ao acaso e se perderam de amor. Preencheram seus vazios com a presença um do outro, encontraram, enfim, um parceiro para dividir silêncios. Quando se olharam já sabiam, ou pressentiam, que algo extraordinário estava para acontecer. Não apostaram um no outro, apenas se entregaram a uma força que era inevitável e impossível de prever. Coisas da paixão não se explicam com razões ou projeções: no campo das emoções, a certeza é um sentimento que se contrapõe e se anula diante das pulsões.

Na primeira noite que passaram juntos, sentiram-se nus de corpo e alma. Entregaram-se a um diálogo tão profundo e íntimo que no fim da noite enxergavam-se um através dos olhos do outro e, por pouco, não perderam suas identidades e personalidades para sempre. Quando se separaram pela manhã, tinham certeza de que algo tinha mudado: a vida, dali pra frente, iria se tornar desconhecida aos passos seguros e desapaixonados de antes. O mundo pulsava.

Tornaram-se unha e carne, fixaram-se um no corpo do outro até alcançarem o limite da perda de individualidade. Certa tarde, passaram oito horas deitados na cama, observando um ao outro e acompanhando o movimento lento e contínuo dos raios de sol no decorrer da tarde. Em intervalos de tempo, faziam sexo com uma paixão invejável e insuspeita: percebia-se que ambos estavam envolvidos em um misto de tesão e paixão inigualáveis, facilmente invejada pelos casais mais felizes. Eram horas de amor desenfreado e incessante.

Conversavam tanto e com tamanha intensidade durante as madrugadas que se esqueciam de dormir ou descansar. Mesmo assim, as olheiras sumiram e a disposição ao longo dos dias aumentou consideravelmente. Mudaram de vida como se algo ou alguém apertasse um simples interruptor. A mudança era clara no tom de voz, nas atitudes e no sorriso espontâneo que deixara de ser mecânico. Ele engordou alguns quilos; ela tratava de se maquiar e usar os mais belos vestidos do guarda-roupa. Ele se surpreendia ao sorrir no ônibus lotado; ela almoçava sozinha como se estivesse acompanhada.

Sabiam que aquela empolgação era possível por ser o início do relacionamento e das descobertas. Imaginavam que tudo acabaria tão rápido quanto começou, mas perceberam que o tempo já havia dissolvido e tudo se passava como em um sonho em que não se medem horas ou minutos. Descobriram uma nova forma de amar: não brigavam, não discutiam, não se envolviam mais com outras pessoas. Tornaram-se uma ilha: não tinham amigos em comum, não conheciam os familiares uns dos outros. Eram dois desconhecidos. Só o que ele tinha era o número do celular dela.

Em uma terça-feira chuvosa, Juliana saiu apressada logo cedo. Como de costume, deu um beijo apaixonado em Matheus e se despediu com um abraço longo e apertado. Saiu e nunca mais voltou. Tudo estava intacto: as roupas no armário, a escova de dente no banheiro e uma lista de supermercado. Após alguns dias de ausência, Matheus se desesperou. Não entendia os motivos de Juliana ter sumido. Ligava no celular e ela não atendia, checava seus e-mails e nada. A angústia era não ter como contatá-la de outra maneira: realmente não sabia nada sobre ela. Preocupou-se tanto em conhecê-la bem que se esquecera dos detalhes de sua vida prática.

Tentava encaixar o quebra-cabeça dos motivos do abandono. Chorava, quieto e sozinho, todas as noites antes de dormir. Acordava de madrugada a procurando no meio dos lençóis. Sentia-se vazio. Encontrava-se perdido novamente. A cor cinza voltava gradualmente a dominar sua visão e a decepção fez com que passasse a odiar Juliana para tentar esquecê-la. Durante um mês ligou todos os dias para o número de celular dela, ansioso por ouvir sua voz e, aí sim, xingá-la com todos os termos ofensivos que conhecia contra uma mulher.

Passado um mês, Matheus se entregou a uma tristeza densa e absoluta. Sentia-se sozinho mesmo em meio a toda a turma de amigos ou ao calor humano dos familiares. Uma noite, porém, deitou-se na cama vazia e encheu-se de esperança de que um dia Juliana retornaria, sem explicações, pedindo perdão pelo desaparecimento. Deitou-se, ensaiou um sorriso e dormiu pensando em fazer de cada acordar um esperar por Juliana. Enganava-se a si mesmo. Juliana, poucas horas depois de ter saído da casa de Matheus naquele dia, fora atropelada por um ônibus e estava enterrada em um cemitério a poucos quilômetros dali.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

Anúncios