As crianças se surpreendem com novidades na mesma frequência com que choram quando são bebês. Mas não é exatamente isso o que as distingue dos adultos. Quem cresce continua se surpreendendo, mesmo que com menor constância, mas nem sempre está preparado para o teor e a intensidade das descobertas. A diferença é que o dissabor não draga a criança alguns degraus abaixo de uma escala de entusiasmo, ela simplesmente se livra de qualquer incômodo com a próxima descoberta.

 

Uma criança descobre, por exemplo, que o gosto do sangue do seu dedo furado se assemelha ao de uma carcaça de um carrinho de metal. Ela lambe a ferida mais de uma vez para ter certeza. Enquanto não tiver a chance de perguntar aos pais do que se trata, ela vai usar o curto repertório para fazer as próprias conexões e explicar o fato. Não importa se está certa, mas se o que interpreta a entusiasma. As crianças têm sempre novas opções em meio ao perene processo criativo em que estão posicionadas.

 

A vida adulta é cada vez mais sobre como administrar as frustrações das descobertas, e cada vez menos sobre como multiplicar a capacidade de se impressionar com a realidade.

 

Acho que é por isso que as alegrias adultas ocorrem com mais assiduidade quando os homens imitam crianças, seja dando golpes de Estado, seja viajando em lua de mel.

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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