Anselmo era um pára-raio de inimigos. Estabelecia uma relação de magnetismo com desafetos. Colecionava rivais aos borbotões. Tudo porque em seu dicionário não constava o verbete “perdão”. Havia decorado o significado de poucas palavras, que, por coincidência, eram semanticamente familiares: rancor, mágoa, ressentimento, ódio, fúria e repulsão.

Posto isso, levava uma vida mais sistemática do que a de Kant. Por amor próprio, obedecia apenas seu relógio biológico, fulminando verbalmente quem ousasse discordar de suas vontades e caprichos. Ninguém escapava.

Se saísse para dançar com uma sirigaita de 26 anos e ela pisasse seu pé, esculachava a moça no meio do salão. Se estivesse no cinema em uma sessão infantil e uma garotinha de 5 anos abrisse o berreiro, levantava-se com pés de terremoto, enfiava chupeta goela abaixo da coitadinha e retirava-se “com pés de lã”. Se uma idosa de 88 anos demorasse a pagar os boletos bancários, bradava impropérios de deixar qualquer um ruborizado no banco, e fazia a limpa na carteira da senhora. Se um policial de 43 anos roubasse sua vaga preferida na lanchonete do bairro, esperava a ausência do tira para murchar os quatro pneus da viatura.

Anselmo só parou para olhar para dentro quando se viu envolvido em um grave acidente. Natural. Como sempre, todo amor emana tragédia e toda tragédia emana amor. Após atropelar uma garotinha de 9 anos e ver seu carro arremessá-la a metros de distância, Anselmo desceu do automóvel decidido a bradar absurdos contra a pobre menina e culpá-la pelo ocorrido. Caminhou até o pequeno corpo estendido no chão e ajoelhou-se. Antes de esgotar seu arsenal de xingamentos, Anselmo calou-se diante daquela visão. Sangrando e já distante da lucidez, a garotinha tirou do bolso do vestido uma flor e a estendeu para o algoz.

Quando o resgate chegou, Anselmo entrou no carro, ligou o som e saiu em disparada. O atropelamento e a trilha de Tom e Vinicius o fizeram entrar para a “escola do perdão”. A sabedoria dos dois e a singeleza do gesto da menina o fizeram compreender o verdadeiro significado de uma das palavras mais universais que existem. Não importavam lugares, nem tempos distintos, Anselmo sabia agora que o perdão, era feito para doar, “pardonaire”, “forgive”, “vergeben”, “perdonare”, enfim, para dar.

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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