As pessoas aproximavam-se curiosas. Sentada em seu trono, era responsável pelo buraco que tomava conta do solo, afundando sob o peso de seus segredos. Na mão direita empunhava uma espada quebrada. Na outra um enorme escudo negro, cravado de espinhos, que cobria de sombras todo o seu lado esquerdo. A boca começava a se desmanchar, assim como as orelhas. A coroa sobre a cabeça estava rachada, e os olhos emitiam uma luz profunda, estupidamente tênue.

O vento passou, levando mais um pouco de matéria decomposta. A testa cedeu, e a coroa cobriu seus olhos. Vez por outra um passante tentava recolocar a peça em seu lugar. Impossível passar pelo escudo.

A cabeça desfazia-se na secura do sol, enquanto o corpo mofava nas sombras. Sem poder se aproximar, a vida seguia acompanhando o soterramento aquele rei. Uma última lágrima correu por trás da coroa, desceu pelo rosto e alcançou o peito. O coração estremeceu. Foi somente um espasmo. O primeiro contato depois de muito tempo, uma revelação e o arrependimento.

As pessoas em volta tinham os olhos marejados. Um rapaz tomou coragem e chutou o escudo com força. A estátua se curvou sobre si mesma. Coluna, cabeça, braços, se quebraram. Cairam sobre todo o resto podre, e se desfizeram como giz. Não tinha mesmo nada a esconder.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras sobre imagens perturbadoras que às vezes aparecem em sua cabeça.

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