Seu Costa e sua companheira não estavam mais quites. Em descompasso afetivo, carnal e todas aquelas coisas que constroem a base matrimonial, ele se lembrou de um termo antigo, que ouvia nas rodas de fuxicos e fofocas de suas tias quando pequeno, e resolveu colocá-lo à prova. Nos dias de hoje, dizia-se que ele se separou ou se divorciou. Outrora falariam que desmanchou. E, mais antigamente ainda, espalhariam que ele estava desquitado.

Agora só, não se importava com a companhia do vazio. Com uma serenidade de dar sono, enfrentava um bombardeio diário de perguntas. No fim, todos os interrogatórios terminavam com o seguinte questionamento: “O que é a solidão?”, ao que ele respondia: “É só o amor que hoje não veio”. No fundo, amava sua esposa, e a separação dos dois não passava de boato.

Atolado em dívidas, marcou um encontro com Pereira, seu contador, num botequim no centro da cidade. Fazia um calor de matar, e os dois molhavam as palavras nos copos de cerveja como quem mergulha um biscoito de maizena no achocolatado matinal. Tudo ficava mais doce. Seu Costa não perdia a pose, enquanto Pereira abria sua camisa bege listrada, tirava afoitamente o pequeno pente de marfim do bolso do lado direito do peito, jogando com auxílio de uma das mãos os poucos cabelos que lhe restavam para trás. O suor caía a conta gotas na papelada oficial.

Entre explicações relativas a assuntos profissionais – que eram o motivo primeiro da reunião entre os dois – Pereira e Seu Costa falavam sobre amenidades. Pensamentos leves do cotidiano e fofocas masculinas bendizendo as senhoras que desfilavam pelas calçadas. Até o momento em que Seu Costa, despretensiosamente, surpreendeu seu contador.

– Pereira, ontem descobri e escolhi a música que desejo que toquem no meu enterro.

– Deixa de besteira, Costa. Você ainda tem muitos anos pela frente, meu chapa. Muita lenha pra queimar…

– Eu sei disso, mas não vejo mal algum em escolher algo que me desmonte por dentro para emocionar os outros. E tem mais, minha alma já foi pro brejo, portanto só me resta destruir o corpo agora. Garçom, vê mais uma, por gentileza?

– Mas não consigo entender essa fixação pelo outro lado…

– Pereira, veja bem, meu caro. Eu não quero morrer logo. Meu cotidiano é um pandemônio de desorganização, e, como você bem sabe, eu nunca fui de estruturar e racionalizar nada na minha vida. Portanto, não me custa nada planejar minha morte. E tem mais. Se eu encontrasse aquele tal de Renè Descartes pela rua, enfiava uma bala nele, ou melhor, o mataria com requintes de crueldade, com espetos de churrascaria. É por essas e outras que conto com a ajuda de sujeitos como você, pessoas que têm lucidez para azeitar minha vida. Do meu hoje cuidam vocês, da minha ida cuido eu.

– Mas, Seu Costa, não é muito mais rentável programar o seu “amanhã” em vez de deixar tudo pronto para o seu “depois de amanhã”?

– Claro que não, Pereira. Grandes gênios, como Vinicius, Drummond, Bandeira e Machado flertaram com a morte. A vida é pra gastar, não pra pensar. O partir, por ser misterioso, é muito mais fascinante do que o ficar.

Terminada a reunião, os dois se abraçaram e marcaram outro encontro para a semana seguinte. Apressado, Seu Costa justificou a partida dizendo que precisava passar na floricultura.

– Justo, são pro seu velório?, perguntou Pereira.

– Não. São pra minha Wilma, hoje a gente faz bodas de ouro.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e, depois de ter composto “Choro de Costas”, oferece esse texto para seu avô, o Seu Costa, que matou a curiosidade do além no dia 22 de novembro de 2002, e faria aniversário amanhã.

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