IMG_1227

Ando, com fé eu vou, porque ela não costuma falhar. Depois de um ônibus regular desde o aeroporto de Salvador à tarifa módica de R$ 4 e a não tão módica duração de 1h30, cheguei ao Mercado Modelo, subsolo do Pelô. No trajeto, tive a chance de captar um recorte da organização dos bairros e a inspiradora orla da praia, faixas largas para carros, motos e ônibus. Muito desapego, principalmente do Estado com seus representados.

Salvador é uma cidade onde o azulejo tem asilo, não cemitério. Foi esse o nome de uma loja do gênero que São Paulo optou por denominar mais fatidicamente. Mas se o cidadão morrer aqui, os parentes podem ter certeza de que haverá muita ajuda para o espírito desgarrado. A miríade sincrética toda com Yansã, Iemanjá, Oxum, Oxossi e muitos outros são o resultado de uma das expressões que a interação entre Portugal e sua mão-de-obra escrava proporcionou. Salvador tem isso nas entranhas, com os acarajés vendidos por baianas evangélicas e o Bonfim nas pulseiras – “oferecidas” sempre ostensivamente pelo povo da rua, aliás.

Com o efetivo policial reduzido em 40% nos fins de semana, muitos assaltos acontecem no Pelô e restante do Centro Histórico. A coisa anda um pouco fora do controle, ouço dizer no albergue. Não tenho tempo de ser coagido ou ameaçado: Salvador, no entanto, é só meu ponto de partida para três dias em Morro de São Paulo.

Catamarã. Duas horas de sacolejo interessante no trecho que liga o terminal marítimo de Salvador ao atracadouro de barcos – um dos dois únicos veículos da ilha. No caminho, vejo se afastar, lá longe, longinho, o farol da Barra. Ao chegar, interpelam os carregadores com seus carrinhos de mão travestidos de táxis. Pode-se fazer um bom dinheiro com isso, aliás, coisa de R$ 800 por semana. Em Morro não entram carros, então o transporte de qualquer coisa, de botijão d gás a uma aposentada incapaz de caminhar, é feito nessas bases. Há de ser cuidadoso como pedestre: é possível ser atropelado em morro, mas eu bem queria padecer aqui, se preciso e atropelado fosse.

IMG_1083

As ruas (?) são todas de areia, não são acompanhadas de calçadas ou qualquer tipo de concreto. Recebem um fluxo intenso de carregadores, moradores e muitos turistas. O concreto (pouco) sobra para as lojas e galerias de artesanato, que contam camisetas, bolsas, colares, pulseiras, anéis de pedra e de metal, vendedores atenciosos e, pasmei, máquinas de cartão de credito. Aliás, as comunicações aqui vão muito bem. Direto da orla da Segunda Praia, por exemplo, dá para ligar para qualquer lugar da Europa para R$ 2 o minuto. Meu celular Oi aqui é rei, pega bem em todo lugar.

Às cinco da manhã, o sol comparece, inundando o quarto com gentileza. Acordei na calmaria, como se acorda quando sua mãe te sacode com carinho, dizendo “Filho, chegou a hora…”. Ao café da manhã, portanto, no albergue do alto de um morro da Primeira Praia, que, por enquanto, só existe para mim.

Morro de São Paulo é uma praia com belos recortes, paisagens em doses cavalares de dopamina, adrenalina, morfina. Acompanhar o sol nascer da ilhota da terceira praia me fez crer por boas horas na frase pintada no muro que funciona como a despedida dos visitantes do lugar.

Semana que vem tem mais.

IMG_1259

Ricardo Torres interrompe as férias nesta terça-feira para o Sete Doses

Anúncios