Foto: Helder Jr.
Ficou na ponta dos pés para se espreguiçar. Sentiu um frio na espinha, e bocejou em voz alta sem perceber. As pessoas que passavam por ali não deixaram de escutar. Mas se surpreenderam, na verdade, com a pose do homem.

Ele não voltara a pisar as solas dos pés no chão. Achou que era uma cãibra passageira, porém não havia dor alguma. Estava enviesado, mesmo. Jogou todo o peso do corpo para trás. E foi então que flutuou.

Sim, o homem planava no ar.

Quem assistiu à cena conta que todos se mostraram sem reação. Boquiabertos, pararam o tempo. Deixaram cair o que comiam. Soltaram alças de bolsas e malas. Largaram suas crianças de colo. Quase tudo não resistiu à gravidade. Restou o sujeito que, perplexos, rodeavam.

Ele próprio era o mais sereno. Girou o pescoço e observou o público presente. Um a um, desviaram-lhe os rostos. Preferiram se entreolhar, em busca de explicações para o irracional. Haviam secretamente desejado um encontro com o esdrúxulo desde sempre, contudo mantiveram a expectativa de recobrar a normalidade do nunca.

O mais altaneiro dos homens foi o primeiro a esfregar os olhos. A escuridão acabou preenchida pela claridade em segundos, e nada mudara. Arremessou-se, desta vez com ímpeto maior, para frente. E subiu mais alguns metros em direção às nuvens.

As crianças que foram jogadas no solo, naquele exato instante, cessaram o choro. Gargalharam como se testemunhassem um espetáculo. Não eram risadas ingênuas. Havia um sarcasmo de adultos nos sons graves emitidos por aqueles meninos e meninas.

Ninguém, no entanto, prestou atenção nas crianças sem colo. Talvez porque uma gorda senhora acompanhou o  movimento seguinte do homem voador. Na mesma hora em que ele pulou novamente, ela se jogou no asfalto. Ficou ajoelhada, brandindo os braços no ar, em gesto de reverência. Seus joelhos sangravam em cortes rasos.

“Amém!”, alguém berrou ao fundo. Lá atrás, todavia, uma agitação superava qualquer louvação. Acontece que um senhor, com pesados óculos pendendo do nariz, queria enfrentar a multidão para atravessar a rua. Trocou xingamentos e até tapas com alguns jovens que se debruçavam em outros para tentar descobrir o motivo da aglomeração. Por sorte, um deles apontou o indicador para cima.

O homem já estava a muitos metros de distância do chão, conforme se espantaram os jovens e o senhor. Esgoelou-se por socorro finalmente, mas, assim como naquele bocejo inicial, não tivera noção do seu ato.

O grito não foi capaz de competir com as vozes dos que se firmaram no solo. Havia quem saltasse na esperança de também voar. Outros acenavam (as crianças e o senhor entre eles) para o homem. Muitos sorriam de felicidade. Chegavam a lacrimejar diante do milagre inalcançado.

Ele olhava para aquilo com desprezo. Decidiu nunca mais abaixar a cabeça. O fato é que não demoraria muito para que, de tão pequeno, o maior dos seres sumisse do alcance de sua vista. Em cerca de cinco minutos, o homem desapareceu no céu azul-poeira. Começou a chover.

As pessoas permaneceram impassíveis até que suas roupas molhadas grudassem nos corpos. Foi o sinal para recolherem bolsas, malas e crianças de colo do chão.

Retomaram os mesmos caminhos de outrora. Um jovem ainda tropeçou na senhora ajoelhada. O senhor discutiu um pouco mais antes de cruzar a rua. E todos estavam em suas casas ao anoitecer.

Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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