Era descampado. Nada por perto. Vida não havia aos olhos e sentidos nus. Apenas uma árvore curva, anatômica. O Sol castigava até os cascudos e calejados de epidermes surradas. Aparentemente, Clóvis se achava só. Fatigado, recostou-se naquele tronco convidativo. Tirou da cabeça o chapéu para cobrir o rosto de pele encarquilhada. Sem sinal de animais. Formigas, borboletas e pássaros ali não passavam de lendas. Ouvia-se apenas o assobio silencioso da brisa.

Mesmo sem relógio de pulso, Clóvis bem poderia contar as horas, minutos e segundos pela disposição solar. Nem que tentasse. Ali não existia tempo, apenas uma leve noção dele, a longo prazo. Só notava-se que o presente virara passado ao ver que as folhas da copa da árvore solitária deitavam no chão, secas e retorcidas. Ou quando Clóvis recontava o número de pintas e manchas da terceira idade que pipocavam no dorso de sua mão, e percebia que, da noite para o dia, a quantidade havia aumentado discretamente.

Clóvis não esperava nada da meteorologia. Não queria sujeitar suas vontades ao clima. Todas as manhãs repetia para si mesmo: “quem espera tempo bom é sertanejo”. Sem relógio ou companhia para lhe clarear os caminhos, não sabia sequer quantos anos tinha. Lá, o tempo jazia.

Era velho, mas nem disso sabia também. Conhecia as rugas apenas pelo tato. Sem espelho para se mirar, conhecia vagamente suas feições das vezes em que tentava se descobrir no reflexo do riacho. Por quanto mais tempo viveria isolado e enclausurado em si mesmo? Pouco, talvez.

Como todas as vezes, acordava do cochilo em sua árvore e caminhava sem pressa de voltar. Seguia cada feita por uma direção desconhecida. Eram quilômetros. Picos e vales intermitentes e intermináveis. A sensação de poder era imperativa, já que era dono de todo aquele descampado, tudo era só seu. Não precisava – nem tinha como – dividir todas as suas posses.

Como flertava com o acaso, certo dia, depois de tanto caminhar, avistou uma colina alta que não lhe parecia familiar. “Nunca tinha visto aquele morrão. Estranho… Quem será que botou ele bem ali?”. Decidiu encará-lo de frente, debaixo para cima. Destemido, subiu. Do lado de lá, uma visão ineditamente deslumbrante. Um extenso campo circular de girassóis, cujos brilho e vivacidade feriam os olhos. Lá do topo avistavam-se um clarão diminuto e uma zona desplantada bem ao centro do prado.

Clóvis desceu no embalo das vistas doídas, afinal, nunca tinha visto tanta cor e tanta vida em sua vida. Tocava os girassóis com a inocência de um recém-nascido. Cheirava cada miolo e cada pétala como se fosse perder o olfato no próximo segundo. Na medida em que se aproximava da parte descampada no centro do campo, o vento soprava mais forte, bagunçando seus cabelos, e o ar se rarefazia violentamente.

No olho daquele furacão florido, a cena que jamais sairia da mente de Clóvis. Uma bailarina deitada na relva, com os olhos marejados. Como se ignorasse a presença daquele estranho, ela permanecia estática, com os olhos fixos nas nuvens. Repentinamente, a bela moça desatinou a falar. Dizia palavras desencontradas no seguinte discurso:

– Meu par, perdi meu par. Deixei o palco, saí dos trilhos. Parece que sabotei meu próprio roteiro. Não lhe conheço ao certo, mas presumo que você chegou tarde demais por aqui. Tem um jeito lerdo de ser, de quem muito quer, mas pouco pode. Invejo isso, pois vive de forma atemporal, alheio ao tempo de paz, que, como dizem, não faz nem desfaz. Se pudesse, morreria em você. Uma pergunta: onde a vida é mais graciosa, no meu campo de girassóis ou no seu descampado carregado de sofrimento e candura?

Desnorteado, Clóvis limitou-se a responder:

– Quem fala muito diz pouco.

Sem se despedir, deixou para trás os girassóis de volta ao seu mundinho. Lá, deitado em sua árvore, dispensava a previsão, abraçava a preguiça e vivia para si mesmo, calado.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

 

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