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Morro de São Paulo tem uma sequência matadora de atrativos para quem pretende existir por lá alguns dias. O lual das quintas-feiras é um bom exemplo: uma horda de frutas e garrafas ocupa mais de 20 barracas no fim da segunda praia. O colorido das melancias, abacaxis e dos animados vendedores atrai os turistas para o ritual de degustação de roskas – apelido carinhoso da caipirinha de vodka. Pode-se tomar, por exemplo, uma versão com maracujá, morango e abacaxi dentro de um cacau por R$ 7.

 

Tanta fartura se explica pela abundância de frutas na ilha, certo? “Nada disso”, me disse um dos vendedores. Aquele território insular torna tudo mais caro. Não se produz fruta, peixe ou qualquer outra mercadoria na ilha na escala adequada para o consumo da turistada. Então a mercadoria é toda importada da cidade mais próxima com conexão terrestre, Valença. Pela manhã, pude acompanhar a chegada dos barcos com gás, hambúrgueres, verduras, frutas etc. Boa parte disso segue para o lombo dos burros que auxiliam os locais. Muitos descarregamentos são feitos para abastecer as mais de 200 pousadas do lugar. O número é até baixo para a impressão que se tem. De todos os estabelecimentos comerciais disponíveis em Morro, 30% é hospedagem, 30% é restaurante e o restante se divide em lojinhas bem charmosas de artesanato, decoração e confecção, além das óbvias agências de viagem que te empurram qualquer deslocamento para lhe arrancar um filão da sua carteira de turista desprendido.

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Descarregamento matinal de mercadorias

Caí em uma dessas, embora estivesse consciente. Morro de São Paulo faz parte da Ilha de Tinharé, mas é circundada por Boipeba e Cairu, outras duas ilhas que também têm próximas outras ilhotas. Comprei um passeio que circunda o arquipélago todo a bordo de uma lancha rápida para 15 pessoas. O primeiro ponto de parada é em uma área de piscinas naturais com um bar flutuante. Eram 10 horas da manhã, ninguém para servir ou para aceitar um drinque, então ficamos apenas mergulhando atrás dos peixes mais coloridos que conseguíamos encontrar. A próxima etapa é uma trilha em um vilarejo que nem ruínas de banheiro tinha. Foi a melhor definição de rusticidade que eu encontrei até então. Areia fina, troncos retorcidos, alguns arremedos de intervenção humana com palhas para conter alguma mercadoria que por lá chegar, e só. Segui o caminho trocando as impressões com um amigo chileno, o Santiago. Mais de 40, com filhos, viaja o mundo uma vez por ano e, cada vez com mais frequência, visita o Brasil. Ele me diz que pretende encaminhar os filhos, aposentar-se e levar a esposa para cuidar de uma pousada em um lugar exatamente como Morro, onde a vida se saboreia, não é apenas cumprida.

 

Enquanto esperávamos por uma lagosta grelhada, uma vendedora de artesanato surgiu e nos ofereceu seu trabalho. A mulher era uma hippie moderna e nos deu uma visão empresarial da atividade que escolheu, desde que fugiu do Pinochet. Sim, outra chilena. Os dois trocaram algumas impressões sobre o país de origem, mas as semelhanças pararam por aí. Santiago é empresário, montou seu próprio negócio no sul do Chile e passa os feriados enfurnado em uma cabana no meio do parque Torres del Paine com a família toda. A mulher mora há 15 anos em toda a América Latina, vive de artesanato desde então e já conseguiu preparar os filhos para estudarem no exterior, além de comprar três casas simples na Ilha de Boipeba. Vive embasada por seu discurso paz e amor, mas ostenta um olhar determinado, de quem travou muitas lutas para defender a opção de ser livre. “Vendo arte, não peço esmola”, costuma dizer a quem pechincha demais. Ela ainda dá aulas de artesanato em uma escola local, dirigida por um alemão, que segue o método Waldorf.

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Santiago e a lagosta grelhada

Os princípios pedagógicos de primazia da liberdade, prolongamento da infância e atendimento individualizado também atraíram outros gringos, que renunciaram a seus países para viverem e criarem seus filhos em um excerto do paraíso. Essas crianças provavelmente não se tornarão CEOs, mas desenvolverão uma visão de mundo muito afinada com o ambiente de coletivização em que estão inseridas na ilha. Travei uma rápida discussão sobre o tema com Santiago, que a encerrou com um comentário que segue a linha “Faça as suas opções; eu valorizo todas, desde que você se responsabilize por todas as complicações que nelas estão inseridas”.

 

Faz uma semana que isso aconteceu e ainda continuo pensativo sobre as minhas opções. Talvez transcorra a vida toda e eu ainda pensarei. Sei, no entanto, que preciso continuar a viajar para questioná-las.

 

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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