Faz anos que não compreendo o que ocorre quando perco os horizontes dos meus passos e, sozinho, sinto-me perdido nos descaminhos da vida. Fechado em meu leito, louco e desesperado, faço planos de perder-me ao futuro e sentir-me preso aos pesares que nunca antes atingiram meus sonhos juvenis. Adulto, tomo para mim o remédio da desilusão, a estupidez de me sentir frágil e fraco quando as penumbras das sombras dos meus antepassados me assombram para um destino que não escolhi. Perdido, sem direção e sem prumo, esforço-me para orientar-me na direção contrária ao caminho que não planejei e que não consigo evitar; ao passo que meus pés chafurdam em um mar de lama que forma aos poucos e sem pressa o abismo de meus dias.

Devagar – como devagar é a decadência de um homem que não pensa – sinto as horas e os minutos esvaírem-se em derrocadas de futilidades e emoções que não valem um centavo. Aprendo com os erros que os erros só existem por fazerem parte das direções que na verdade queremos e não sabemos desejar. Errar, como ser humano e ser pensante, é insistir no caminho que leva ao abismo, é ser atraído pela força desconhecida que nos impregna a alma e os sonhos de fantasias soturnas e nos levam de volta às nossas verdadeiras origens de homens da caverna. O erro é a prova inconteste de que o acerto não nos interessa por inteiro. Que só marchando em direção aos negros olhares profundos da escuridão encontramos as forças que nos impulsionam a sentir-nos vivos. A morte é um norte para a vida. A vida é um norte para a morte.

Cada erro é a prova de que o acerto não faz parte da natureza e nem interessa aos sentimentos profundos que nos orientam e nos entortam. Somos tortos por natureza. Endireitar-se é quase como querer que as ondas do mar não espumem nas areias das praias ou que as cores das flores se tornem cinzas e desbotadas. Todos os caminhos tomados, direcionados e mentalmente planejados, seguem dois fluxos de consciência. Quase sempre achamos que podemos escolher entre eles, mas na encruzilhada das trilhas que se avistam à frente somos puxados misteriosamente para o trajeto indesejado.

Duvida-se do caminho que não fora optado. Pensa-se sobre como o cenário final apresenta árvores secas e tortas, água suja e mal cheirosa, um céu de cor vermelha rubra e toda a miséria e pobreza que os olhos menos atentos vislumbram como a normalidade de uma vida que não é perfeita. Do outro lado, na trilha do caminho que ficou para trás, a dúvida. O que encontraríamos por ali? É preciso sempre duvidar do caminho para se ter a quase-certeza de que ele foi o melhor a ser escolhido. É preciso duvidar sempre das escolhas com o medo e a consciência de que, na maior parte das vezes, enganamos a nós mesmos. Duvidar sempre de si porque o que você é não está nem próximo de ser descoberto. Somos mistério. Somos todos mistério. Mistério que não é e nunca será desvendado por ninguém. Nem por Deus, nem por nós mesmos. Resta-nos pensar sobre quem somos e sobre tudo aquilo que não queremos ser. Resta-nos sempre duvidar de tudo e, principalmente, de nós mesmos. As certezas só existem para aqueles que não pensam.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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