Aniversário de 12 anos da Mariana. Era a primeira vez que alguém marcava sua festa em um lugar para fazer balada. Ainda assim, parecia mais ou menos igual a qualquer outra. Refrigerantes, salgadinhos gordurosos e brincadeiras de corridas. Meninos e meninas conversando em seus respectivos cantos. Eles aproveitando para zoar o… BUM! canhão da aniversariante. A pirulito e a Isabola. Mas algumas delas… olhavam uns, davam risadinhas, e a outros apontavam em gestos motivadamente pouco discretos, mas mais sérios. Estavam tramando com certeza! O que era? Daniel continuava se divertindo, brincando. Ah! Quem se importa?

 Era tempo de dance music. De “músicas lentas”. Com o avanço da noite uns três casais, sempre os mesmos, dentre umas 40 crianças, dançavam juntos. Pareciam extraterrestres no meio daquele universo infantil. Extraterrestres muito interessantes. Havia atenção e curiosidade a respeito do modo como se comportavam.

 Adriana então pediu para dançar com o Daniel. Não, não! Não queria dançar. Que coisa besta! Obrigado! Não gostava. Não estava com vontade. Não sabia. Não queria mesmo. (Que chamasse o Gabriel, que era dessas frescuras.) Tinha o copo na mão. Mais tarde então. A música estava acabando. Outra iria começar. Foram.

 Abraçou a cintura fina. Quente. Ela era bem mais alta, e passou os braços sobre o pescoço dele. O garoto recostou a cabeça sobre seu peito, e o abraço se tornou próximo, bem apertado. Balançavam de um lado para outro. Daniel começou a entender a cadência. A prestar atenção naquela letra, que começava a dizer algo. Algo mais gostoso, além do refrão besta sobre “Sexy eyes”. Dançaram duas músicas seguidas, em absoluto silencio. Ele sentia calor. Esperou uma brecha, e voltou para o seu canto.

 Adriana era linda, loira, com corpo de mulher. Era linda e também usava um boné do Taz, com a aba virada para trás. Tudo tão misturado… Não se passaram nem 10 minutos, e ela voltou para chamar Daniel. A mesma ladainha e enrolação. Não queria, não gostava, não sabia. Era uma criança. Ela insistiu, pegou pelo braço, puxou com força, era grande. Ele deu três passos e se jogou, se esparramou no chão para não chegar na pista.

 Os três garotos espertos que participavam dos casais estavam indignados. Dri, o Marcos quer dançar com você. Deixa o Daniel. Nossa! O moleque acabou de se jogar no chão. Que otário.

 Ela não arredava pé. Se o Daniel não ia para a pista, ficavam os dois amarrados. Cruzou o braço com o dele, e permaneceram os dois sentados nas cadeiras encostadas na parede. Foram-se uns 15, 20 minutos, com alguns pedidos seguidos, mais espaçados. E dúvidas.

 – E se fosse a Juliana te pedindo, você dançava com ela?

 – Ah… dançava. – Parecia a resposta certa para se livrar logo da confusão. Na verdade não fazia diferença. E não tinha idéia do que estava fazendo.

 – Seu grosso! – seguido de um tapa na cara e a saída imediata do seu lado.

 Daniel se sentiu mal. Quis pedir desculpas. Que reação desproporcional! O que tinha feito de mais? Entendia agora, é claro, mas não esperava nada intenso como aquilo. Ficou atordoado. Era muito pequeno para isso, e tinha vergonha de voltar atrás. Já a Adriana deixou de falar com ele pelo resto da noite, e alguns meses, enquanto aguentou…

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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