*O escritor russo Alexander Soljenítsin (vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1970, quatro anos antes de ser considerado traidor pelo regime soviético e expulso de seu país) profetizou em texto publicado no jornal The New York Times de 28 de novembro de 1993: “Embora o terreno ideal do socialismo-comunismo tenha desmoronado, os problemas que ele pretendeu resolver permanecem: o uso descarado da vantagem social e o desordenado poder do dinheiro, que muitas vezes dirige o curso mesmo dos acontecimentos. E se a lição global do século XX não servir como uma vacina curativa, o imenso turbilhão vermelho poderá se repetir em sua totalidade”.

No mesmo ano em que Soljenítsin criticava o liberalismo econômico norte-americano em um dos jornais de maior circulação nos Estados Unidos, na Rússia o então presidente Boris Ieltsin dissolvia o Parlamento que se tornara um obstáculo às reformas implantadas com a queda da União Soviética. O brasileiro Paulo Afonso Francisco de Carvalho, hoje coordenador do curso de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), assistiu por trás de uma árvore, escondido, ao disparo de um tanque de guerra contra o Congresso russo, de onde partiram rajadas de metralhadoras.

Carvalho viajara a Moscou em 1977. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) havia lhe concedido uma bolsa de estudos para cursar Engenharia Agronômica na Universidade da Amizade dos Povos Patrici Lumumba (em 1995, defenderia tese de doutorado em Economia no Moscow State Institute of International Relations). “Sou de uma família pobre do interior de Goiás. Meu pai sempre sonhou com uma sociedade mais justa e, por isso, ingressou no PCB. Foi preso várias vezes: a primeira no ano do Golpe, em 1964, quando o levaram para uma fazenda do Jango nas proximidades de Uruaçu, nossa terra; a última em 1975, já com 73 anos de idade transportaram-no em um camburão para Brasília, onde ficou 15 dias em um quartel com os habituais espancamentos. Cresci nesse ambiente. De Brasília, rumei para Buenos Aires, onde recebíamos as passagens doadas pelo PCB, com destino à Rússia”, conta.

A URSS atraía jovens idealistas de todo o mundo naquela época. Também em 1977, o militante da União dos Estudantes Comunistas de Portugal José Milhazes deixou a cidade de Póvoa de Varzim para “cursar História e assistir à construção do comunismo” na Rússia. Formou-se na Universidade Estatal de Moscou Lomonossov e passou a se dedicar à tradução de livros e filmes para o português. Mais tarde, na condição de jornalista, tornou-se correspondente de veículos como o jornal Público, a agência de notícias Lusa, a Rádio TSF e a emissora de televisão SIC. Várias de suas convicções políticas ruíram com os soviéticos. “Mudou praticamente tudo em Moscou – até eu mudei muito – e nem sequer os comunistas mais stalinistas e ortodoxos resistiram”, diz Milhazes.

Nossa terceira testemunha do fim da URSS conheceu também os Estados Unidos durante a Guerra Fria. Professor de História da Universidade de São Paulo (USP), Angelo Segrillo se graduou pela Southwest Missouri State University antes de iniciar curso de mestrado no Instituto Pushkin de Moscou em 1989. “Meu interesse na URSS era tanto linguístico e cultural quanto político, pois tinha curiosidade de conhecer de perto um país socialista. Ser observador in loco da Perestroika foi um privilégio para um historiador”, comenta.

Autor dos livros O declínio da URSS: um estudo das causas, O fim da URSS e a nova Rússia e Rússia e Brasil em transformação, Segrillo é rotineiramente convidado a expressar suas opiniões sobre a Rússia. O jornal O Estado de S. Paulo recorreu a ele por ocasião do falecimento do escritor Alexander Soljenítsin no último dia 3 de agosto. Na entrevista, Angelo Segrillo destacou que o primeiro livro lançado pelo vencedor do Prêmio Nobel, Um dia na vida de Ivan Denisovich (1962), é uma das poucas críticas diretas ao stalinismo publicadas naquele tempo.

A morte de Soljenítsin coincidiu com a eclosão do mais recente conflito originado do desmembramento das repúblicas soviéticas. No final do mês de agosto deste ano, a Rússia reconheceu a proclamação unilateral de independência da Ossétia do Sul e de Abkázia em relação à Geórgia, que havia invadido as duas províncias com o intuito de retomar o controle da região horas antes da abertura das Olimpíadas de Pequim. “Como a Ossétia do Sul e a Abkázia são unidades pequenas [juntas, possuem pouco mais de 200 mil habitantes], que têm dificuldades para se manter por si mesmas, a tendência é que acabem se juntando à Rússia”, prevê Segrillo. Os próprios governantes russos endossam o discurso.

A atitude do Kremlin, entretanto, gera no Ocidente a preocupação de que a Rússia intervenha militarmente em outras ex-repúblicas soviéticas. Na retórica, os Estados Unidos já ameaçam encampar uma nova Guerra Fria contra a Rússia. O presidente russo Dmitri Medvedev aceita o enfrentamento com desdém: “Se optarem pelo cenário de confronto, fazer o quê? Já vivemos em condições adversas antes”.

Paulo Afonso de Carvalho constata: “A implosão do Muro de Berlim lançou pedaços ao espaço sideral que hoje estão voltando com a força de meteoritos”. Apesar de o ressurgimento do “turbilhão vermelho” não se confirmar na totalidade que antevia Soljenítsin, ao menos suas consequências já vieram novamente à tona.

Novos ricos

A Rússia pós-socialismo se rendeu ao liberalismo econômico norte-americano. Ao retornar a Moscou em 1997 para formular tese de doutorado sobre a Perestroika, futuramente apresentada à Universidade Federal Fluminense (UFF), o historiador Angelo Segrillo se surpreendeu: “Logo no aeroporto, dava para ver que Moscou era como qualquer outra grande cidade ocidental, repleta de cartazes luminosos e com agitada vida noturna. No período soviético, havia pouca iluminação, já que as pessoas dormiam cedo para trabalhar no dia seguinte”. O cientista político Paulo Afonso Francisco de Carvalho lamenta as transformações que também vivenciou: “Moscou se tornou uma cidade mais alegre com o brilho fugaz das decorações e luzes. No entanto, o preço social que se pagou foi elevadíssimo”.

De fato, a Rússia do novo milênio está distante de ser uma nação igualitária. Bilionários do Leste Europeu ostentam luxo em um país onde 20% da população sobrevivia abaixo do nível de pobreza em 2005, de acordo com estatística do Banco Mundial. No início do mês de agosto de 2008, por exemplo, a brasileira Lily Safra, viúva do ex-banqueiro Edmond Safra, vendeu por € 500 milhões (cerca de R$ 1,2 bilhão) sua casa na Riviera Francesa para um russo que preferiu manter a identidade em sigilo. Foi a maior transação imobiliária já registrada na história.

No ranking das pessoas mais ricas do planeta divulgado pela revista Forbes, sete russos estão entre os 25 mais bem classificados – quatro são norte-americanos. Eles têm entre 40 e 51 anos e no mínimo US$ 20 bilhões (quase R$ 33 milhões) cada. No 15º lugar da relação, o magnata Roman Abramovich é proprietário, entre outros, de um iate de 120 metros, de um Boeing 767, do castelo do Conde Drácula na Romênia, e de dois times de futebol, o CSKA Moscou e o Chelsea, da Inglaterra. Até o Brasil foi contemplado com dinheiro dos bilionários russos. Antigo parceiro comercial e hoje inimigo político de Abramovich, Boris Berezovsky era um dos investidores da MSI, que estabeleceu parceria com o Corinthians em 2005.

Carvalho e Segrillo explicam da mesma maneira o fenômeno dos novos ricos da Rússia. “São algumas dezenas de ‘pés-rapados’ ligados à antiga Nomeklatura [elite dirigente], que privatizou a área de riquezas naturais do país com a anuência de Ieltsin. A imprensa local os chama de oligarcas”, afirma o primeiro. “Essa situação resulta da forma como foi feita a privatização das empresas estatais na Rússia pós-soviética. Foi um processo rápido e conturbado, em que as melhores empresas acabaram com alguns poucos ‘amigos do rei’. Daí o enorme poder desses oligarcas”, complementa o outro.

O poderio dos oligarcas despertou atenção policial. No caso de Boris Berezovsky, em julho do ano passado o Ministério Público brasileiro pediu à Interpol a prisão do russo, para investigar sua conexão com o Corinthians. O MP já comprovou que o fundo de investimentos MSI utilizava o clube de futebol para lavagem de dinheiro. “Esse crime é um dos mais difundidos na Rússia”, classifica o jornalista português José Milhazes. “Mesmo que o dinheiro seja ganho com toda a honestidade, os homens de negócio russos receiam pelo seu futuro e tentam levá-lo para ‘portos seguros’. A fuga de capitais é frequentemente confundida com lavagem de dinheiro, mas os dois acontecem”, acrescenta.

Milhazes vai além. Ao mencionar a “postura soviética” atribuída ao primeiro-ministro Vladimir Putin em relação ao conflito com a Geórgia, ele compara: “Faço minhas as palavras de um oligarca russo: Putin quer mandar na Rússia como Stálin, mas ter uma vida como a do oligarca Abramovich”.

Carvalho se mostra indignado diante de comparações entre governantes russos atuais e ditadores do passado. “É uma classificação equivocada, típica de correspondentes que trabalham na Rússia sem estudar a história do país. Não entendem a psicologia do povo russo e fazem previsões enviesadas. Os russos não querem recuperar a URSS, muito menos o antigo Império Russo”, reclama. Ele resume sua opinião sobre Vladimir Putin em uma frase: “É um grande governante, que recuperou o orgulho russo”.

É inegável, porém, que Putin valoriza bastante o histórico socialista da Rússia. Basta o exemplo de que, quando chegou ao poder, o agora primeiro-ministro e ex-agente da KGB resgatou o antigo hino da URSS. Mas o próprio José Milhazes ressalva: “Evidentemente, Putin recorre a símbolos comunistas, mas não imagino uma reconstituição ideológica do passado. Acho que é mais correto afirmar que, no interior de Putin, misturam-se a herança soviética com os novos desafios que estão ante o país”.

Segrillo esmiúça a análise do colega português. “Esses ex-agentes da KGB querem criar um projeto da Rússia como potência que sintetize sem estigmatizar o passado do país, tanto czarista quanto soviético. Putin é um líder pragmático, que soube utilizar as circunstâncias positivas de quando chegou à presidência [o país já havia superado o auge da crise econômica, e o petróleo estava em alta] para recobrar o prestígio do país internamente e externamente em termos de Realpolitik. Por outro lado, a maneira como fez isso, centralista e autoritária, coloca em risco a frágil democracia política russa”, adverte.

Vladimir Putin foi sucedido como presidente pelo correligionário Dmtri Medvedev no início de 2008. Passou a ocupar o cargo, então, de primeiro-ministro. “Mas Putin ainda parece manter as rédeas do sistema”, diz Segrillo. Já Carvalho e Milhazes finalmente concordam entre si ao negar que o poder esteja nas mãos de Putin ou Medvedev. “Quem manda? Nem um, nem outro”, afirmam. Segundo ambos, os chamados “siloviki” ditam as regras na Rússia. Trata-se dos burocratas saídos dos serviços secretos russos. Assim como Putin.

Na visão de analistas dos Estados Unidos, Vladimir Putin é uma ameaça mesmo longe da presidência. A imagem que alguns fazem do russo é semelhante à do general norte-americano Jack D. Ripper, personagem criado por Stanley Kubrick para o filme Dr. Fantástico. No roteiro de 1964, Jack Ripper rompe a barreira da Guerra Fria e ordena um ataque nuclear à URSS sem autorização da Casa Branca.

Segunda Guerra Fria

A tensão na Geórgia restabeleceu de certa forma a disputa bélica entre Rússia e Estados Unidos. Como resposta a acordos assinados por George Bush para instalação de escudos de defesas na Polônia e na República Tcheca (outras duas ex-repúblicas soviéticas), o Kremlin aprovou o desenvolvimento de um míssil balístico intercontinental quase indetectável e com rota menos previsível aos radares.

A região do Cáucaso já está repleta de armamento pesado. Estabelecida em 1949 com objetivo de fazer frente à URSS, atualmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte presta auxílio à Geórgia no Mar Negro. “Os navios da OTAN não estão transportando apenas ajuda humanitária ou reequipando o exército georgiano com armas convencionais, mas também com mísseis que podem alcançar centenas de quilômetros”, acusa Carvalho. O cientista político ainda aponta que o reconhecimento dos Estados Unidos à independência unilateral de Kosovo em relação à Sérvia, sustentado pela OTAN, justifica a postura russa para com a Ossétia do Sul e a Abkázia.

De acordo com Carvalho, a Rússia não deve temer nenhuma represália. “A OTAN precisa mais da Rússia do que a Rússia da OTAN. Na realidade, a OTAN está em uma sinuca de bico no Afeganistão. Nesse sentido, a ajuda da Rússia com a autorização para utilização do espaço aéreo e outros aspectos de infra-estrutura são fundamentais”, contesta. Mas e a possibilidade de a Organização Mundial do Comércio impedir a adesão russa ao bloco? “Isso não muda nada. A Rússia já está se fortalecendo sem a OMC. Inclusive, há uma discussão interna para saber se vale ou não a pena ingressar nessa organização”, contrapõe. Por fim, o antigo membro do Partido Comunista Brasileiro chega a propor um isolamento digno da URSS. “Ainda ameaçam expulsar a Rússia do Grupo dos Oito. Mas o que isso muda em termos práticos? Nada.”

Comercialmente, a Rússia também está em atrito com os Estados Unidos. Vladimir Putin anunciou que excluirá 19 empresas norte-americanas da lista de autorizadas a exportar carne de frango para o país. Ele negou que a decisão seja influenciada pelo apoio norte-americano à Geórgia. “Na carne dessas aves, além de antibióticos e cloro, foi detectado arsênico”, denunciou Serguei Lissovski, vice-presidente do Comitê Agrícola do Senado russo.

José Milhazes conta que os Estados Unidos passaram a exportar carne de frango para a Rússia no final da década de 1980, como uma ajuda humanitária. “Como era vendida a baixo preço, gozava de tal procura nas camadas menos favorecidas da população que foi batizada de ‘coxas de Bush’, em homenagem a George Bush pai. Quem estava na Rússia no final da URSS conhece muito bem a importância das ‘coxas de Bush’ na alimentação dos mais necessitados. Sabia-se da qualidade duvidosa, mas não havia outro remédio em tempos de crise. Fui dos que as consumiu muitas vezes”, relata.

O atual presidente norte-americano não dispõe do mesmo prestígio de seu pai entre os russos. Também não é bem-quisto por Paulo Afonso de Carvalho. “Com o conflito na Geórgia, Baby Bush ameaça congelar os tratados na área nuclear. E daí? A Rússia pode responder à mudança de comportamento com Irã e Coréia do Norte. A União Européia poderá rosnar, mas soará como gemidos ou breves sussurros. As economias de alguns desses países dependem do fornecimento de energia da Rússia”, lembra. Para falar sobre o destino dos artefatos bélicos da extinta URSS, contudo, o cientista político usa poucas palavras. “Sou amigo do representante da empresa estatal russa que exporta armamentos, mas não estudo esse tema. Em encontros informais, nunca pergunto sobre isso”, recua.

São rotineiros os boatos sobre a possibilidade de cidadãos comuns recorrerem a representantes como o amigo de Carvalho para obter armamento nuclear. “Não acho que seja dessa forma, como os enlatados americanos vendem. É muito banal”, nega. Milhazes e Angelo Segrillo divergem. “Comprar armas na Rússia não é um problema, mesmo as sofisticadas, mas isso não significa que seja possível adquirir armas de destruição em massa. Pelo menos não existem provas de que alguém as adquiriu”, pondera o português. “Não é como comprar na feira, mas profissionais do ramo que tiverem as corretas conexões políticas ou militares podem, sim, conseguir material nuclear sensível, como já ocorreu no passado”, garante o segundo.

As discordâncias continuam nas perspectivas de uma nova Guerra Fria. “Como fenômeno global, isso não deverá ocorrer. O que poderá haver é um fortalecimento de acordos militares entre Rússia e países da Ásia”, prevê Carvalho, endossado por Segrillo. “É cedo para falar em Guerra, mesmo Fria. Ainda há espaço para negociações”, acredita o historiador.

Para José Milhazes, ao contrário, a Segunda Guerra Fria não só começou, como também está terminada a Nova Ordem Mundial que surgiu com o fim da URSS. “Se considerarmos Guerra Fria como uma disputa sem o recurso de armas, ela já iniciou há bastante tempo entre Rússia e Estados Unidos. Nesta guerra atual, o duelo passa pela conquista de zonas de influência. Do mesmo jeito que é difícil prever todas as consequências desse conflito na geopolítica mundial, não há dúvidas de que elas serão gigantescas. A arquitetura das relações saída da Segunda Guerra Mundial ruiu completamente. Por isso, é necessário procurar novas bases para o Direito Internacional e criar organizações internacionais que correspondam a essas inovações. A ONU, tal como funciona hoje, esgotou-se. O modelo do Conselho de Segurança também não funciona”, analisa.

Nesse contexto de desordem, o jornalista e historiador português arrisca antever: “O Brasil poderá ter um papel importante na criação da Nova Ordem Mundial. Como potência emergente e não comprometida com os erros do passado das grandes potências, vosso país tem fortes possibilidades de se transformar em um dos novos pólos do xadrez internacional. Já a Rússia, se não acompanhar esse salto tecnológico, perderá o comboio da história. E, desta vez, definitivamente”.


*Reportagem originalmente publicada na edição nº 11 da revista
Getúlio. Recuperada em homenagem ao 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, comemorado neste mês.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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