Passava das dez da noite e a rua estava feiamente deserta. Para a própria agonia, A apertava o passo. O silêncio na região era tão ensurdecedor que ela ouvia apenas o barulho de seu salto tocando a calçada, e o tilintar das moedas que carregava no bolso do vestido roxo e amarelo. Durante o dia sua casa parecia bem mais próxima.

Como é sabido por todos, um dos sentimentos mais sem graças e banais que já foram inventados atende pelo nome de Pressentimento. Os ilumindados dotados do tal dom da premonição vivem uma vida cinzenta e repleta de temores. Antever os passos que o mundo dará é o mesmo que aniquilar a beleza que mora no alumbramento.

Por infelicidade, A padecia desse mal. Convivia com o tédio de adivinhar o por vir diuturnamente. Ultimamente andava com o faro descalibrado, tendo previsto a morte de sua sobrinha de 4 anos, por meningite, quando, de fato, quem batera as botinhas fora seu sobrinho de 6, de leucemia.

Justo naquela noite chuvosa, A apertava o passo obviamente por pressentir alguma tragédia. E o pior é que quando chovia merda era tempestade, não era garoa.

A menos de quinze metros do portão de casa, a monotonia e o silêncio foram interrompidos por barulhos distantes de sirenes. A profecia se encaminhava para não falhar desta vez. E A começou a escutar outros passos que se aproximavam de suas costas. Mal teve tempo de respirar, quando virou o cano da arma já estava grudado em sua testa. Tranquila, não gritou nem largou as sacolas e a bolsa no chão, apenas cerrou os olhos.

O armado em questão era O, que, ferido na coxa direita por um tiro de raspão, fugia manco da polícia, implorando por ajuda para a primeira alma que lhe aparecesse pela frente. Apesar da truculência de mirar uma pistola em direção ao crânio dos outros, O havia sido assutadoramente educado:

– Eu acabo de roubar a vida de um policial-pai-de-família. A madame poderia me ajudar?

Balançando a cabeça positivamente, A deu meia volta. Agora o cano da arma cutucava sua nuca. Caminharam apressados até o número 18, no casebre da profeta, e subiram a escadaria de madeira rangente. A tranquilidade de O acalmava A, que logo aprontou um curativo bem feito para estancar o sangue da perna do fugitivo. Ferimento cuidado, o rapaz pôde relaxar fisicamente. E só. Psicologicamente ele estava uma pilha. Logo, tentou fazer um divã do sofá de A. De costas para a anfitriã, começou a interrogá-la, exigindo conselhos:

– Senhorita, o que faço agora da minha vida? A mato ou me mato? Ou acha melhor eu ficar aqui até amanhecer, ou quem sabe por tempo indeterminado, até sarar da minha perna e poder escapar saltando de telhado em telhado?

Como oxigênio em contato com o fogo, o silêncio de A alimentava a tensão.

– A madame não tem língua? Abre a boca pra eu ver…

Vagarosamente, O pegou as duas pistolas que havia postado sobre a mesa. Uma mirada em sua cabeça e a outra virada para A, que, por fim, decidiu se pronunciar.

– Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto.

Desmontado, O abaixou os canos, caminhou até A e desferiu-lhe um carinhoso beijo na testa. Sem olhar para trás, desceu as escadas e se entregou para a polícia, que ainda fazia a ronda pela rua. Naquele deserto, saiu da vida daquela mulher não como elefantes, que deixam pegadas e marcas indeléveis, mas como babuínos, que somem no horizonte sem deixar vestígios.

O ano era 1973. Sentado no chão frio de sua cela, ligado no radinho de pilha, O ouviu novamente a decisiva frase de A, desta vez propagada pela voz de Ney Matogrosso. Era o início da inebriante Fala, dos Secos e Molhados, capaz de derrubar todo e qualquer tipo de pressentimento barato.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses, também prefere escutar do que dizer nada por dizer, e aproveita para agradecer seu tio Divaldo por todos os ensinamentos musicais

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