Setembro

Sentado em sua cadeira de cobrador, já sentindo os primeiros raios da manhã batendo em suas costas, Everton Dias se concentrava no jornal do dia com o intuito de finalizar a seção de palavras cruzadas. Após um súbito lapso de pensamento, grifava com as cores fortes de sua BIC azul a última charada da coluna vertical que lhe restava:

I

L

D

E

S

A

N

U

V

I

A

D

O

S

A

D I S S O L V E R

O sacolejar do ônibus dificultava a escrita, mas não lhe roubava a atenção. Enquanto conferia se havia mesmo completado toda a cadeia de palavras, observou uma pequena mancha branca que brotara em seu corpo. Localizada na pele sobressalente que separa o polegar do indicador, invadindo as costas da mão, a marca era pequena como um grão de arroz, mas suficiente para intrigar o cobrador. Achou por bem pensar mais tarde sobre o assunto e prosseguiu folheando seu jornal. Fixou-se, não se sabe bem o motivo, em uma das tirinhas do dia:

Fonte: Depósito do Calvin

Outubro

Everton decorou todos os detalhes do apito que a máquina amarela de Bilhete Único produz no momento em que um passageiro passa seu cartão. O som insistia em invadir seu cérebro durante todo o dia. Mesmo os barulhos das buzinas dos carros, os palavrões dos motoristas irritados e o burburinho dos passageiros exaltados lhe passavam despercebidos. Ouvia o apito e automaticamente olhava para a cara do cidadão que ultrapassava a catraca. Vez ou outra, o som irritante lhe servia como despertador durante um cochilo rápido.

Além das palavras cruzadas e dos quadrinhos, Everton gostava de olhar fixamente para os passageiros na tentativa de estabelecer contato com qualquer um deles. Aguardava ansioso alguém que, ao invés de tirar um cartão magnético do bolso, retirasse moedas para pagar a passagem. Esses eram os únicos que vez ou outra olhavam para sua cara. A maioria estabelecia contato apenas com a máquina amarela. Passavam o Bilhete Único, giravam a catraca e desapareciam na multidão que se espremia pelos corredores.

No momento em que estava contando as moedas do caixa, Everton percebeu que a pequena mancha branca se prolongara quase até o meio das costas de sua mão. Assustado, molhou os dedos com saliva e esfregou a pele com desespero para tentar remover aquela chaga leitosa que se alastrava ameaçadora. Inútil. Começou a procurar pelo resto do corpo e percebeu, surpreso, que todo o seu cotovelo se despigmentara. Sua cor parda e saudável começava a desaparecer.

Novembro

Na manhã da consulta com o dermatologista, Everton acordou transpirante e ofegante. Sonhara que sua cadeira de cobrador estava vazia e no lugar de seu corpo havia uma máquina amarela gigante. O apito era ensurdecedor. O ônibus estava lotado, mas as pessoas se assemelhavam a zumbis. Inertes, olhavam para baixo e tinham expressões indefinidas. Todos eram cinza.

Após a consulta com o Dr. Ivan Medeiros, o cobrador ficou sabendo que tinha vitiligo. Olhava para a boca do médico, que abria e fechava velozmente, e ele não entendia a explicação fornecida:

– O vitiligo caracteriza-se pela redução no número ou função dos melanócitos, células localizadas na epiderme responsáveis pela produção do pigmento cutâneo que se chama melanina. Essa despigmentação ocorre geralmente em forma de manchas brancas de diversos tamanhos e com destruição focal ou difusa. Pode ocorrer em qualquer segmento da pele. (fonte: Wikipédia)

O cunhado, um ex-farmacêutico vagabundo que vivia nos botecos jogando sinuca, tenta explicar:

– O doutô quis dizer que isso aí é uma doença que não passa e tu vai ficando branco que nem o Michael Jackson. E é o nervoso que faz tu ficar assim. Num tem jeito.

– Como cura?

– Tu tem plano de saúde?

– Tenho não.

– Ih, então num vai tê jeito. Precisa de muito dinheiro e tu não tem. Pra você não tem cura não.

– Vou ficar albino desse jeito aqui? – fala apontando para o cotovelo

– É só umas mancha. Esquece isso aí.

Dezembro

Everton abriu os dois primeiros botões de seu uniforme azul tentando se livrar do calor sufocante que atingia a cidade naquele dia. O ônibus estava inerte no meio da Rua Teodoro Sampaio, resultado de um trânsito formado por batidas policiais na esquina adiante. No peito do cobrador, as chagas esbranquiçadas já se alastravam em direção ao pescoço. As orelhas, já totalmente albinas, penduravam-se e se destacavam em meio aos cabelos negros e embaraçados.

O cobrador limpava o suor com uma toalha encardida e procurava não encarar mais os passageiros. Agora, todos eles olhavam com cara de espanto para as manchas cândidas que lhe escorriam das bochechas. Olhares de pena e de comiseração se alternavam com feições de nojo e horror. Everton, agora, chamava mais atenção do que a máquina amarela. Uma velha – destemperada e desprendida de respeito e bom senso – foi a primeira pessoa a lhe dirigir a palavra naquele dia.

– Essas manchas são muito feias e nojentas, meu filho. Não tem cura não?

– Pra mim não. – respondeu o cobrador sem olhar para frente.

Janeiro

Everton percebeu que estava completamente branco quando levantou, calçou as chinelas surradas ao lado da cama e viu que seus dois pés pareciam mais uma massa amorfa de cal e gesso. Olhou para os braços, levantou a camisa e abaixou as calças do pijama para constatar que estava totalmente cor de leite. Ao se olhar no espelho, quase não conseguiu identificar sua boca, seu nariz e seus olhos: pareciam desenhados em uma folha de papel em branco.

Entrou no banho e notou que a água que escorria pelo ralo tinha uma coloração esbranquiçada. Estava literalmente desbotando. Pensou em pedir ajuda, mas lembrou que para ele a doença não tinha cura. “Deve ser o estágio em que meus melanócitos estão saindo”, constatou, lembrando-se das explicações do Dr. Ivan Medeiros. Não sabia bem o motivo, mas a palavra melanócitos ficou ecoando em sua cabeça como o apito da máquina amarela.

De volta à cadeira de trabalho, percebeu que as pessoas olhavam para ele cada vez mais fixamente. Tornara-se uma assombração visível e indesejada. Não demorou e o motorista resolveu lhe chamar a atenção:

– Everton, acho melhor você procurar um médico. Nunca vi alguém ficar branco desse jeito!

– Num adianta. Pra pobre como nós, essa doença num tem cura não.

Fevereiro

O calor de São Paulo ultrapassava os 36°C naquele início de tarde. Everton percebeu que sua pele estava com uma consistência mais grossa e áspera do que o comum. Estendeu o braço para fora da janela e trocou uma moeda de 1 real por uma garrafinha de água dos camelôs e a derramou pelo rosto. Poucos minutos depois do líquido escorrer pela sua cara, começou a encontrar dificuldades para movimentar os músculos de seu rosto. Sua pele ficou rígida e, lentamente, Everton passou a sentir dificuldade para movimentar suas feições.

No meio da tarde, seu corpo estava completamente endurecido. Não conseguia mais se movimentar. Somente seus olhos piscavam. Observava as pessoas passarem seus bilhetes na máquina amarela, mas não conseguia mais acompanhá-las com o pescoço. Transformara-se em um boneco de gesso.

O sol se derramava no corpo engessado do cobrador e refletia um intenso brilho branco. O ônibus ficou iluminado, banhado por uma luz leitosa. Conforme o tempo passava, Everton notou que sua pele se derretia. Olhava para baixo e via seu corpo pingando, desbotando como se dele caíssem gotas de tinta branca. Uma poça começava a se formar embaixo da cadeira. Os passageiros continuavam passando pela catraca normalmente. Tentavam não olhar para aquela cena. Sentavam-se em seus bancos e desviavam o olhar.

Já no fim da tarde, o corpo de Everton desaparecera em um rio de leite que invadia os corredores do ônibus e oscilava conforme as brecadas e aceleradas do motorista. Os passageiros continuavam passando seus bilhetes na máquina amarela. Agora, olhavam ainda mais atentamente para baixo. Pisavam com cuidado para não mancharem seus sapatos com aquele líquido branco e viscoso.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos e acha que a Internet abre novas possibilidades para a literatura. Como ainda não sabe como isso ocorrerá, faz experimentos sem muita certeza para provocar ideias

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