Agradecido por todos os dias de grande dor. Alertam-me para a fragilidade da vida. Inebriado a cada dia raro de verdadeiro júbilo e gozo. Condensações únicas que não voltam mais. Não existe uma única vez em que lembre desses momentos e não me inunde o peito de sentimentos.

Hoje sou sobretudo sofrimento. A mola de toda minha vontade de seguir em frente. Mudar. Sofrimento de gente. Solidariedade.

Lamento muitíssimo pelos que não sofrem. Os que descobriram que indignação é pulsão de juventude, entrega fruto de imaturidade. Que tesão vira barriga. Principalmente é preciso envolver-se consigo mesmo. Valorizar-se. Orgulhar. Garantir. Não existe homem bom por natureza. Existe disciplina e força de vontade.

Os invejaria, não soubesse da apatia que os distancia da vida e os desprepara para a morte. O derradeiro lhes será momento de clareza enlouquecedoura. Sofrimento imperscrutável. Nada pior do que a perplexidade da identificação última e tardia com o outro. Nada mais digno de compaixão do que Ivan Illich, enfim em comunhão com a humanidade durante sua hora de maior solidão. Inimaginável o arrependimento de nunca ter abandonado antes sua breve ilusão de eternidade, para dela ser violentamente arrancado. De repente, tudo o que se foi em vida, ainda antes do fim, acaba, sem sentido. E o vazio precede o nada. A eles desejo uma morte rápida, sem tempo para meditação.

Antes de cair na escuridão semeie no outro o que pode lhe trazer de cumplicidade. No outro a continuidade da sua humanidade.

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

Anúncios