Jardel, nativo dali, filho de pescador, aproxima-se das cadeiras de praia e diz, como se a frase inteira fosse uma só palavra: “Faço passeio, Pedra Furada, passeio de buggy, tenho foto. Que quer ver, quer ver, ver?” O gago Jardel, filho de pescador, é nativo em Jericoacoara e, por isso, uma dupla exceção. Jeri é um oásis para forasteiros, que ali se estabelecem em um ritmo cada vez maior com a sanha de explorar a potencialidade turística que o lugar oferece; ou apenas para trabalhar com o que gostam. Por isso convivem ali italianos, paulistas, franceses, curitibanos, alemães e cariocas que se revezam nos papeis de prestadores de serviço ou turistas. E a linha entre uma aspiração e outra é tênue. Jeri te explica rápido porque isso acontece.

Cinco horas separam quem sai de Fortaleza da terra do guia gago, com uma parada para a troca de veículo em Jijoca de Jericoacoara. A passagem é vendida no aeroporto, na rodoviária, agências de viagens e quiosques menos pretensiosos. O primeiro trecho (Fortaleza-Jijoca) é feito por ônibus extremamente confortáveis da companhia Redenção, em duas categorias: a VIP, com 4 horas de viagem bem condicionadas pelo ar e saídas a partir das 8h30 da Praia de Iracema; e a regular, que dura 5 horas e meia e custa R$ 38 com o inconveniente de realizar várias paradas.

O segundo trecho batiza o visitante no processo de rústico encantamento. O ar condicionado deixa saudades assim que o rosto cruza as portas do ônibus e os pés queimam no traslado da bagagem até a Jardineira. Trata-se de um caminhão adaptado para passageiros, que os abriga sentados em bancos inteiriços para sete ou oito pessoas. O veículo é preparado com tração nas quatro rodas, dispositivo essencial para vencer as estradas de areia que são refeitas todos os dias, com a ajuda das dunas e a energia eólica. No teto torram as mochilas debaixo dos 40 graus do lugar. Na região de Jijoca e Jericoacoara, não cai um fio de água durante cerca de seis meses do ano. No entanto, como prova o trajeto de uma hora entre município e o nosso destino final, o vento constante é um eunuco natural. Desse ponto de vista, é a terra onde já se chega rei.

A monarquia então desembarca da Jardineira, torna a se reconhecer como plebe e termina por se assemelhar aos beduínos do Saara. Caminhar na areia fofa com 40 kg nas costas não é lá uma tarefa para nobres, mas o refinamento o espera nas pousadas do lugar. São muitas opções e, em número razoável, até baratas. Dá para escolher em uma democrática faixa de R$ 25 (solteiro) a R$ 200 (casal) pela diária, mas existem ainda as opções multimilionárias para quem pretende manter o reinado. Eu e minha querida mochila escolhemos uma opção de R$ 160 a diária em quarto duplex, com café da manhã e acomodações dispostas como chalés de madeira. A 50 metros da praia, dá para decidir se você quer encarar a primeira vista da praia da rede instalada na varanda do seu quarto ou do deck onde são servidas as refeições. Embora as hospedagens tenham lá suas opções, é um pecado não buscar um bom restaurante para findar o jejum iniciado em Fortaleza. Como desembarquei às 14h, tive tempo de alimentar minha fome na medida certa para comer bem. A 50 metros da pousada, fiz o reconhecimento da orla essencialmente gastronômica da praia de Jeri e estanquei, em dúvida. Um garçom esperto me fisgou com um cardápio convidativo: camarão no coco. Ao que pensei em uma porção de camarões com um molho da fruta mais onipresente do Nordeste, o homem traz uma cumbuca caprichada com crustáceos. Até a uva passa do arroz à grega eu comi.

Quando se come tanto assim, é bom entreter o resto do corpo que não se envolve com a digestão. Em Jeri, descobri a melhor maneira de fazê-lo. Comecei pelo exercício que se é obrigado a fazer para vencer a altura da duna. Os passos vacilam e os olhos padecem com a areia – que varre aquela montanha dourada como um espírito sereno, ansioso pelo reencontro com o mar. O vento pontilha sua presença nas pernas com pequenos beliscões zombeteiros. Dá para observar a vila à direita, as casas já encolhidas pela distância e o oceano à esquerda. Windsurfistas e kitsurfistas cortam as ondas como os novos jangadeiros de uma vila que não é mais dos pais de Jardel, nem dos nativos, nem dos estrangeiros, embora seja de todos eles. É a vila da praia entre as 10 mais bonitas do globo, segundo o Washington Post. É a vila cosmopolita, que passa na sua sala de cinema ao natural o filme mais belo e antigo do mundo. Em 30 minutos, o céu passa do azul ao laranja em um inesquecível périplo multicromático. Os coadjuvantes sofrem o efeito do calculado movimento do protagonista, seguro na sua trajetória rumo ao ostracismo diário que as nuvens e o mar lhe conferem. Em sua derradeira aparição, ele parece pedir à plateia que se manifeste. Assim, uns aplaudem, as crianças dão cambalhotas, o ambulante vende mais cervejas, os casais exercem seus clichês afetivos e outros simplesmente dão as costas e abandonam o cenário.

No lado exatamente oposto, a lua avisa timidamente que a noite só começou.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

Anúncios