Inegavelmente havia beleza na imagem daquele copo sobre a mesa. Na sala escura, à meia-penumbra, apenas a mesa era iluminada pela branda luz externa de um dia nublado. Podia sentir as nuvens esparramando-se pelo vidro da janela. Agora sentado no sofá, a alguns metros de distância, Seu Edgardo contemplava a cena supracitada, com uma conclusão dura, porém óbvia: a mesa e o copo vazio eram a materialização da ausência.

Aos 63 anos aquela era a primeira vez em uma década que ele ficava absolutamente sozinho em casa. Há exatamente dez anos, depois de sua esposa, dona Maria Miquelina, ter sido levada sorrateiramente pela mão por um câncer no esôfago, Seu Edgardo decidiu que era hora de voltar a morar com o pai, Seu Rufino, num miúdo casebre, de bom tamanho para os dois.

E aquela foi mesmo uma década de hábitos simples e pequenos gestos. Pai e filho praticamente não saíam de casa, apenas para comprar pouca comida e muita bebida. Passavam manhãs, tardes e noites jogando dominó, cartas e entoando antigas canções: Seu Edgardo na voz gasta, Seu Rufino no violão surrado. Quando jogavam os passatempos, não se falavam. Dialogavam apenas por meio das músicas. Conversar mesmo, quase nunca. Não precisavam. Quando queriam se comunicar, gestos bastavam. Quando, por exemplo, um passarinho cantava bonito no quintal, o pai cutucava o filho, depois fazia uma concha com a mão direita na própria orelha e colocava a esquerda no peito, como quem diz: “escuta só que beleza, meu filho, escuta”.

A relação com Seu Rufino ensinara ao filho Edgardo que ele sabia – e adorava – conviver com o silêncio a dois. Já era assim, nos tempos de outrora, com sua saudosa esposa Miquelina. O que não suportava era o torpor da mudez solitária.

Por isso olhava fixamente para aquela mesa havia mais de uma semana. Era este o tempo que Seu Rufino, aos 86 anos, fora escolhido para não mais voltar. Sem despedida, sem palavra, sem alarde. Resignado, na companhia apenas do vazio do copo vazio, Seu Edgardo descobriu que a solidão guarda sua beleza apenas para quem abre a janela para vê-la e não pra quem fecha as cortinas.

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses e homenageia Seu Rufino, Seu Edgardo e Dona Maria Miquelina com o samba-canção “Naquela Mesa”, declaração saudosa de Sérgio Bittencourt a seu pai Jacob do Bandolim, gravada agora no belíssimo disco de Otto, “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”. E enaltece o cantor pernambucano por ter feito um registro bonito como os antológicos de Nelson Gonçalves e Elizeth Cardoso.

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