Marquei o encontro com o Ser Inexistente às 22 horas da última quinta-feira em minha casa. Resolvi procurá-lo após ler notícias de que ele havia começado a fazer terapia. Fiquei intrigado com o fato de um senhor como ele ainda ter fôlego para conhecer a si mesmo e se confrontar com suas mazelas e fantasias.

Após um atraso de meia hora, sentou-se ao meu lado no sofá e, espaçoso, pediu prontamente uma garrafa de conhaque e um copo americano. Mais sereno do que em nosso último encontro – ainda sóbrio –, o Ser Inexistente aparentava estar mais saudável e afável. Desculpou-se pelo atraso e disse novamente que não se lembrava de já ter me concedido entrevista antes. Dessa vez fui precavido, lhe mostrei as duas conversas impressas e lhe provei com uma foto que já havíamos nos encontrado. Olhou com calma e confirmou: “Tem razão, não sou eu mesmo. Admito que já nos encontramos antes”.

Contraditório como sempre, o Ser Inexistente comentou os motivos que o levaram a fazer análise e revelou um pouco de sua vida, desde a infância até os dias atuais. Citou até mesmo a única mulher que um dia amou, falando sobre a diferença entre paixão e amor. Analisou a violência urbana que atinge o Brasil nos últimos anos e comentou algumas das mudanças que a Internet irá proporcionar às futuras gerações.

Recebido em minha casa, o Ser Inexistente reclamou do conhaque barato que lhe ofereci e da decoração do apartamento: "Me parece o buraco de um homem fudido e frustrado"

Por que o senhor resolveu fazer análise depois de velho?

Porque há sempre algo de ausente que me atormenta. Porque sonhar cansa. Esperar pela materialização, mais ainda. Dá um trabalho hercúleo domar as vontades e expectativas. Vez por outra, elas insistem na rebeldia e tentam se desvencilhar de uma lógica racional que as reprime. Neste árduo conflito entre o que se deseja e o que se pode conseguir, a pessoa vai minguando. Perde paulatinamente suas células e impulsos. E corre o risco de se apagar. Quero evitar que isso aconteça comigo e me entender melhor. Hoje, já não sei se tenho desejos ou se criaram os desejos em mim. Além disso, o lápis do tempo é tão obstinado quanto impreciso, coloca-nos rugas em torno da boca, como contrapesos de um sorriso. Não me resta mais nada, só mesmo tentar descobrir quem sou eu.

Mas porque buscar um psicanalista e não uma religião, por exemplo?

É uma opção. Cada um que faça a sua. Mas resolvi fazer depois que li em um livro que quando Freud desembarcou na América para fazer uma série de conferências sobre psicanálise, se eu não me engano em 1909, virou-se para Jung, que o acompanhava, e disse: “Venho trazer-lhes a peste”. Freud disse que o objetivo da psicanálise era fazer com que o sujeito saísse da sua miséria neurótica para entrar na infelicidade do mundo. Achei isso perfeito. Comecei as sessões e percebi que, num certo sentido, a psicanálise é mesmo a peste; ou melhor, ela representa a antiutopia mais radical até hoje concebida pelo espírito humano, chegando mesmo a constituir-se como uma utopia às avessas. A psicanálise pretende curar o ser humano de suas ilusões. Ela não acredita na bondade fundamental do homem, nem parte do princípio de que o processo civilizatório é uma rampa ascendente, de sucessivas vitórias, que chegarão necessariamente à plenitude do amor de todos por todos. A luta entre Eros e Thanatos – vida e morte – se decide dentro de nós, a cada instante. Por nascermos prematurados, incompletos, sem equipamento instintivo capaz de nos costurar com solidez ao mundo, sofremos a permanente saudade de ser pedra, a nostalgia de um sono sem retorno, regido por estatuto que nos transcenda e que não possamos desobedecer ou transgredir. Escolhi esse caminho, pois o psicanalista é o contrário do burocrata ou do especialista. Ele escuta o desejo, debruçado sobre o coração selvagem da vida e, a partir desse pólo, se esgalha, ampliadamente, em todas as direções. O bom psicanalista é um centro pessoal de transformação do mundo. Só sua prática nesse sentido é que dirá a você o que fazer e o que mudar, inclusive na sua vida e na própria profissão. Mas tem quer ser um profissional competente, senão ele só te estraga.

O senhor não consegue resolver isso sozinho? Se um pensador como o senhor não consegue, quem um dia conseguirá?

Não sei se você sabe, mas o conceito de inconsciente pode ser traduzido por uma ideia muito simples, garoto: quando alguém fala, não sabe o que diz. E é isso que acontece com todos nós, não importa o quanto você leu, pensou ou aprendeu. Em verdade, lhe digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas. E é duro caminhar sem saber de fato o que se está dizendo. É doloroso sentir o toque do cansaço nos últimos lances de escada. Vislumbrar e não chegar. Caminhar e tremer com a evidente perspectiva da desistência. É por isso que a gente senta e acende um cigarro. Porque é necessário recuperar-se da luta e aplacar a ardência dos arranhões. Para poder respirar fundo e reiniciar a batalha. Com a certeza de que silêncio e apatia não são a mesma coisa. Apatia seria não procurar ajuda. Ando pensando muita bobagem ultimamente e preciso caminhar até o meu inconsciente para saber os motivos desses pensamentos.

E um grande amor, não resolveria?

Sorte no jogo, azar no amor. De que me serve sorte no amor se o amor é um jogo e o jogo não é meu forte?

O senhor é muito romântico para isso. Nunca teve um grande amor?

Já tive. Tínhamos conversas e risadas em comum, trocávamos afetuosas gentilezas, fazíamos leitura simultânea de livros agradáveis, desempenhávamos tarefas em conjunto, ora insignificantes, ora importantes. Tínhamos contradições passageiras, sem rancor, como acontece a cada um de nós até consigo próprio. Mesmo tais contradições, que eram bastante raras, tornavam mais prazerosa e habitual a concordância de nossos pontos de vista, o ensino recíproco das novidades, o sentir imensamente a nostalgia das ausências e o alegre acolhimento do retorno. Era tudo perfeito, até ela desaparecer.

Eu sei que parece meio clichê, mas o senhor acha que as pessoas ainda valorizam esse tipo de amor?

Óbvio que não. Uma das maiores realizações que se espera da vida é a paixão, um encontro amoroso intenso e pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão, do grego pathos, designa a situação em que sou passivo – em oposição à ação. Minha razão, assim, fica inibida, não é boa juíza de caráter ou de relações. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu “eixo”) sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. A mídia fala muito em paixão e pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Só aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que “foram felizes para sempre” só é possível com o amor, não com o fulgor passional. Mas o triste é que quando há o amor entre duas pessoas, a sociedade obriga que elas ajoelhem diante de um altar e jurem que vão permanecer para sempre nesse estado cansativo, deprimente e anormal. Minha conclusão é de que o amor ainda nem existe para vocês.

Após o desaparecimento de sua mulher, o senhor pensou em suicídio?

Não, só pensei em desaparecer como ela. Se for a mesma coisa… sim pensei em me suicidar. Aliás, penso diariamente e eternamente. Aí do ser humano que não pensa em evaporar. Para esse sim a vida já morreu. E ainda pior que a morte é desviver. Desviver, jamais; sofrer, quando necessário; sorrir, quando for realmente sincero e de boa vontade.

Sou relativamente jovem e penso nisso constantemente também. Às vezes sumir parece a solução mais correta diante de uma realidade incompreensível.

Vou te falar um negócio, garoto. Foi meu pai quem me ensinou. O homem, quando jovem como você, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, que é pelo qual você está passando hoje, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome. Continue assim que você se tornará um homem. A sua dor é a dor de tomar consciência de que o mundo é imundo e de que você contribui inconscientemente para essa imundice.

Mas isso é muito doloroso…

Sim, mas conscientizar isso é a única chance que nos é dada de participar da comunidade humana, com a qual temos um único compromisso: o de não fazê-la pequena, mesquinha, covarde. Não desperdiçar a vida, não desperdiçar o manancial de amor que existe em cada um de nós.

Como você era na sua infância e na sua juventude? Já passava por isso?

Comecei a sentir isso aos oito anos de idade. Voltei da escola certa manhã fingindo que estava muito doente. Mamãe foi condescendente comigo. Fez-me vestir o pijama, levou-me para o sofá na sala de visitas e cobriu-me com uma manta. Sabia que eu tinha voltado para monopolizar sua atenção na ausência de papai e de minhas duas irmãs. Talvez tivesse ficado feliz de ter alguém lhe fazendo companhia durante o dia. Fiquei lá deitado até o fim da tarde e a observei enquanto trabalhava, apurando os ouvidos quando ela ia para outras partes da casa. Impressionou-me o fato óbvio de sua vida independente. Ela continuava a existir mesmo quando eu estava na escola. Percebi que estava sozinho a partir daquele dia.

E depois, quando jovem?

Na sua idade eu ainda era noite e já sonhava madrugadas. Eu ainda era inverno e já sonhava primaveras. Eu ainda era botão e já sonhava flores. Este era todo o meu drama! E se hoje eu me perdi foi porque de mim me parti à procura de mais-além. E penso, agora, de que vale então viver, se indo com os outros me atraso e se buscando ir mais além me perco? Com os olhos da velhice, finalmente olho para dentro. Mas aí o estrago já está feito.

É mesmo difícil se encontrar de verdade com as pessoas…

É… Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa – e olhe que sabemos pouco da nossa própria. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.

Em determinado momento da conversa, o senhor diz que eu contribuo para a construção de um mundo imundo. Como assim? Não tenho culpa da violência absurda que eu vejo lá fora.

Não é diretamente. A criminalidade dos miseráveis, dos famintos, dos desesperados, dos revoltados, exprime uma forma perversa de protesto social, que não conduz a nada, e sem dúvida piora tudo. O delinquente, ao cometer seu crime, não pretende nenhuma transformação da sociedade. Ao contrário, busca identificar-se imaginariamente com o seu inimigo de classe, copiando-lhe caricatamente os defeitos e deformidades. Defeitos e deformidades que, com maior ou menor grau, todos temos.

Existe alguma esperança para a minha ou para as próximas gerações?

A esperança é importante, mas pode tornar-se um demônio, uma planta daninha que come o lugar de outras plantas melhores. A esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto. Mas existe uma mudança importante, não uma esperança, que a Internet proporciona e a sua geração nem percebe. A televisão por programação horária é herdeira do rádio, que foi o primeiro meio que começou a nos organizar a vida cotidiana. Na Idade Média, o campanário era que dizia qual era a hora de levantar, de comer, de trabalhar, de dormir. A rádio foi isso. A rádio nos foi pautando a vida cotidiana. O noticiário, a radionovela, os espaços de publicidade… Nas próximas gerações, essa relação que os meios tiveram com a vida cotidiana, organizada em função do tempo, a manhã, a tarde, a noite, o fim de semana, as férias, isso vai acabar. Teremos uma oferta de conteúdos. A internet vai reconfigurar a TV imitadora da rádio e a rádio imitadora da imprensa escrita. Creio que vamos para uma mudança muito profunda, porque o que entra em crise é o papel de organização da temporalidade.

Interessante… Uma coisa meio besta agora. Como sabe, não consigo enxergar o senhor, mas acho que o senhor usa barba. Por quê?

Imagine um filósofo. Pronto? Agora, me diga uma coisa: por que ele está de barba aí em seus pensamentos? Como eu sei? Ora, eu sei, você sabe, todos sabem: os filósofos usam barba, por várias razões. Primeiro: tanto a barba quanto o conhecimento têm de ser cultivados, numa relação dialética. Enquanto o filósofo filosofa, a barba cresce e enquanto a barba cresce, o filósofo filosofa. Houve um filósofo, inclusive, que de tanto filosofar chegou à conclusão de que não era a barba que crescia a partir de seu rosto, mas sim o contrário: o rosto é que brotava das raízes de sua barba. Desde então, nunca mais chegou perto de uma gillette, com medo de que seus pêlos ficassem pairando no ar, diante do espelho, enquanto seu corpo escorreria pelo ralo da pia.

Para finalizar, qual é a grande verdade que o senhor já encontrou na vida?

Não existe verdade, garoto. Existe convencimento

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui.

Compuseram o Ser Inexistente nesta terceira entrevista: Antonio Prata, Hélio Pellegrino, Camille Claudel, Paulo Leminski, Ovídio Martins, Ian McEwan, Machado de Assis, Cleci Silveira, Santo Agostinho, Renato Janine Ribeiro, Chico Buarque, George Bernard Shaw, Aldir Blanc, Elizabeth Roudinesco, Jesus Martín-Barbero, Fernando Pessoa, José Henrique Lopes, André Toso, Aforismos da Grécia Antiga (autores desconhecidos)

Agradeço a Yu pela foto.

Para ler a primeira Entrevista com o Ser Inexistente CLIQUE AQUI

Para ler a segunda Entrevista com o Ser Inexistente CLIQUE AQUI

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

 

Marquei o encontro com o Ser Inexistente às 22 horas da última quinta-feira no Bar do Bahia, na Rua Augusta. Resolvi procurá-lo após ler notícias de que ele havia começado a fazer terapia. Fiquei intrigado com o fato de um senhor como ele ainda ter fôlego para conhecer a si mesmo e se confrontar com suas mazelas e fantasias.

Após um atraso de meia hora, sentou-se na mesma mesa que eu e pediu prontamente uma garrafa de conhaque e dois copos americanos. Mais sereno do que em nosso último encontro – ainda sóbrio –, o Ser Inexistente aparentava estar mais saudável e afável. Desculpou-se pelo atraso e disse novamente que não se lembrava de já ter me concedido entrevista antes. Dessa vez fui precavido, levei as duas conversas impressas e lhe provei com uma foto que já havíamos nos encontrado. Olhou com calma e confirmou: “Tem razão, não sou eu mesmo. Admito que já nos encontramos antes”.

Contraditório como sempre, o Ser Inexistente comentou os motivos que o levaram a fazer análise e revelou um pouco de sua vida, desde a infância até os dias atuais. Citou até mesmo a única mulher que um dia amou, falando sobre a diferença entre paixão e amor. Analisou a violência urbana que atinge o Brasil nos últimos anos e comentou algumas das mudanças que a Internet irá proporcionar para as futuras gerações.

Por que o senhor resolveu fazer análise depois de velho?

Porque há sempre algo de ausente que me atormenta. Porque sonhar cansa. Esperar pela materialização, mais ainda. Dá um trabalho hercúleo domar as vontades e expectativas. Vez por outra, elas insistem na rebeldia e tentam se desvencilhar de uma lógica racional que as reprime. Neste árduo conflito entre o que se deseja e o que se pode conseguir, a pessoa vai minguando. Perde paulatinamente suas células e impulsos. E corre o risco de se apagar. Quero evitar que isso aconteça comigo e me entender melhor. Hoje, já não sei se tenho desejos ou se criaram os desejos em mim. Além disso, o lápis do tempo é tão obstinado quanto impreciso, coloca-nos rugas em torno da boca, como contrapesos de um sorriso. Não me resta mais nada, só mesmo tentar descobrir quem sou eu.

Mas porque buscar um psicanalista e não uma religião, por exemplo?

É uma opção. Cada um que faça a sua. Mas resolvi fazer depois que li em um livro que quando Freud desembarcou na América para fazer uma série de conferências sobre psicanálise, se eu não me engano em 1909, virou-se para Jung, que o acompanhava, e disse: “Venho trazer-lhes a peste”. Freud disse que o objetivo da psicanálise era fazer com que o sujeito saísse da sua miséria neurótica para entrar na infelicidade do mundo. Achei isso perfeito. Comecei as sessões e percebi que, num certo sentido, a psicanálise é mesmo a peste; ou melhor, ela representa a antiutopia mais radical até hoje concebida pelo espírito humano, chegando mesmo a constituir-se como uma utopia às avessas. A psicanálise pretende curar o ser humano de suas ilusões. Ela não acredita na bondade fundamental do homem, nem parte do princípio de que o processo civilizatório é uma rampa ascendente, de sucessivas vitórias, que chegarão necessariamente à plenitude do amor de todos por todos. A luta entre Eros e Thanatos – vida e morte – se decide dentro de nós, a cada instante. Por nascermos prematurados, incompletos, sem equipamento instintivo capaz de nos costurar com solidez ao mundo, sofremos a permanente saudade de ser pedra, a nostalgia de um sono sem retorno, regido por estatuto que nos transcenda e que não possamos desobedecer ou transgredir. Escolhi esse caminho, pois o psicanalista é o contrário do burocrata ou do especialista. Ele escuta o desejo, debruçado sobre o coração selvagem da vida e, a partir desse pólo, se esgalha, ampliadamente, em todas as direções. O bom psicanalista é um centro pessoal de transformação do mundo. Só sua prática nesse sentido é que dirá a você o que fazer e o que mudar, inclusive na sua vida e na própria profissão. Mas tem quer ser um profissional competente, senão ele só te estraga.

O senhor não consegue resolver isso sozinho? Se um pensador como o senhor não consegue, quem um dia conseguirá?

Não sei se você sabe, mas o conceito de inconsciente pode ser traduzido por uma ideia muito simples, garoto: quando alguém fala, não sabe o que diz. E é isso que acontece com todos nós, não importa o quanto você leu, pensou ou aprendeu. Em verdade, lhe digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas. E é duro caminhar sem saber de fato o que se está dizendo. É doloroso sentir o toque do cansaço nos últimos lances de escada. Vislumbrar e não chegar. Caminhar e tremer com a evidente perspectiva da desistência. É por isso que a gente senta e acende um cigarro. Porque é necessário recuperar-se da luta e aplacar a ardência dos arranhões. Para poder respirar fundo e reiniciar a batalha. Com a certeza de que silêncio e apatia não são a mesma coisa. Apatia seria não procurar ajuda. Ando pensando muita bobagem ultimamente e preciso caminhar até o meu inconsciente para saber os motivos desses pensamentos.

E um grande amor, não resolveria?

Sorte no jogo, azar no amor. De que me serve sorte no amor se o amor é um jogo e o jogo não é meu forte?

O senhor é muito romântico para isso. Nunca teve um grande amor?

Já tive. Tínhamos conversas e risadas em comum, trocávamos afetuosas gentilezas, fazíamos leitura simultânea de livros agradáveis, desempenhávamos tarefas em conjunto, ora insignificantes, ora importantes. Tínhamos contradições passageiras, sem rancor, como acontece a cada um de nós até consigo próprio. Mesmo tais contradições, que eram bastante raras, tornavam mais prazerosa e habitual a concordância de nossos pontos de vista, o ensino recíproco das novidades, o sentir imensamente a nostalgia das ausências e o alegre acolhimento do retorno. Era tudo perfeito, até ela desaparecer.

Eu sei que parece meio clichê, mas o senhor acha que as pessoas ainda valorizam esse tipo de amor?

Óbvio que não. Uma das maiores realizações que se espera da vida é a paixão, um encontro amoroso intenso e pleno. O problema é que não temos segurança dele. Quanto mais me apaixono, maior o risco de me iludir. A paixão, do grego pathos, designa a situação em que sou passivo – em oposição à ação. Minha razão, assim, fica inibida, não é boa juíza de caráter ou de relações. O encontro emocional intenso pode dar errado. Sua base pode ser frágil. Por isso, parece necessário cada pessoa construir o sentido de sua vida (seu “eixo”) sozinha, e balizar a relação com o outro por essa prévia definição pessoal. A mídia fala muito em paixão e pouco em amor. O amor sempre aparece como algo menor que a paixão. O coração não dispara. Parece coisa de velho. Não assistimos a histórias de amor, só de paixão. Talvez esteja na hora de começarmos a contar histórias de amor, não só de enganos. Só aprendemos a viver escutando narrativas. É hora de pensar que “foram felizes para sempre” só é possível com o amor, não com o fulgor passional. Mas o triste é que quando há o amor entre duas pessoas, a sociedade obriga que elas ajoelhem diante de um altar e jurem que vão permanecer para sempre nesse estado cansativo, deprimente e anormal. Minha conclusão é de que o amor ainda nem existe para vocês.

Após o desaparecimento de sua mulher, o senhor pensou em suicídio?

Não, só pensei em desaparecer como ela. Se for a mesma coisa… sim pensei em me suicidar. Aliás, penso diariamente e eternamente. Aí do ser humano que não pensa em evaporar. Para esse sim a vida já morreu. E ainda pior que a morte é desviver. Desviver, jamais; sofrer, quando necessário; sorrir, quando for realmente sincero e de boa vontade.

Sou relativamente jovem e penso nisso constantemente também. Às vezes sumir parece a solução mais correta diante de uma realidade incompreensível.

Vou te falar um negócio, garoto. Foi meu pai quem me ensinou. O homem, quando jovem como você, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, que é pelo qual você está passando hoje, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome. Continue assim que você se tornará um homem. A sua dor é a dor de tomar consciência de que o mundo é imundo e de que você contribui inconscientemente para essa imundice.

Mas isso é muito doloroso…

Sim, mas conscientizar isso é a única chance que nos é dada de participar da comunidade humana, com a qual temos um único compromisso: o de não fazê-la pequena, mesquinha, covarde. Não desperdiçar a vida, não desperdiçar o manancial de amor que existe em cada um de nós.

Como você era na sua infância e na sua juventude? Já passava por isso?

Comecei a sentir isso aos oito anos de idade. Voltei da escola certa manhã fingindo que estava muito doente. Mamãe foi condescendente comigo. Fez-me vestir o pijama, levou-me para o sofá na sala de visitas e cobriu-me com uma manta. Sabia que eu tinha voltado para monopolizar sua atenção na ausência de papai e de minhas duas irmãs. Talvez tivesse ficado feliz de ter alguém lhe fazendo companhia durante o dia. Fiquei lá deitado até o fim da tarde e a observei enquanto trabalhava, apurando os ouvidos quando ela ia para outras partes da casa. Impressionou-me o fato óbvio de sua vida independente. Ela continuava a existir mesmo quando eu estava na escola. Percebi que estava sozinho a partir daquele dia.

E depois, quando jovem?

Na sua idade eu ainda era noite e já sonhava madrugadas. Eu ainda era inverno e já sonhava primaveras. Eu ainda era botão e já sonhava flores. Este era todo o meu drama! E se hoje eu me perdi foi porque de mim me parti à procura de mais-além. E penso, agora, de que vale então viver, se indo com os outros me atraso e se buscando ir mais além me perco? Com os olhos da velhice, finalmente olho para dentro. Mas aí o estrago já está feito.

É mesmo difícil se encontrar de verdade com as pessoas…

É… Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, nem há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma, senão da nossa – e olhe que sabemos pouco da nossa própria. As almas dos outros são olhares, são gestos, são palavras, supondo-se qualquer semelhança no fundo. Entendemo-nos porque nos ignoramos. A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.

Em determinado momento da conversa, o senhor diz que eu contribuo para a construção de um mundo imundo. Como assim? Não tenho culpa da violência absurda que eu vejo lá fora.

Não é diretamente. A criminalidade dos miseráveis, dos famintos, dos desesperados, dos revoltados, exprime uma forma perversa de protesto social, que não conduz a nada, e sem dúvida piora tudo. O delinquente, ao cometer seu crime, não pretende nenhuma transformação da sociedade. Ao contrário, busca identificar-se imaginariamente com o seu inimigo de classe, copiando-lhe caricatamente os defeitos e deformidades. Defeitos e deformidades que, com maior ou menor grau, todos temos.

Existe alguma esperança para a minha ou para as próximas gerações?

A esperança é importante, mas pode tornar-se um demônio, uma planta daninha que come o lugar de outras plantas melhores. A esperança é própria das espécies fracas, como o homem e o gafanhoto. Mas existe uma mudança, não uma esperança, importante aí que a Internet proporciona e a sua geração nem percebe. A televisão por programação horária é herdeira do rádio, que foi o primeiro meio que começou a nos organizar a vida cotidiana. Na Idade Média, o campanário era que dizia qual era a hora de levantar, de comer, de trabalhar, de dormir. A rádio foi isso. A rádio nos foi pautando a vida cotidiana. O noticiário, a radionovela, os espaços de publicidade… Nas próximas gerações, essa relação que os meios tiveram com a vida cotidiana, organizada em função do tempo, a manhã, a tarde, a noite, o fim de semana, as férias, isso vai acabar. Teremos uma oferta de conteúdos. A internet vai reconfigurar a TV imitadora da rádio e a rádio imitadora da imprensa escrita. Creio que vamos para uma mudança muito profunda, porque o que entra em crise é o papel de organização da temporalidade.

Interessante… Uma coisa meio besta agora. Como sabe, não consigo enxergar o senhor, mas acho que o senhor usa barba. Por quê?

Imagine um filósofo. Pronto? Agora, me diga uma coisa: por que ele está de barba aí em seus pensamentos? Como eu sei? Ora, eu sei, você sabe, todos sabem: os filósofos usam barba, por várias razões. Primeiro: tanto a barba quanto o conhecimento têm de ser cultivados, numa relação dialética. Enquanto o filósofo filosofa, a barba cresce e enquanto a barba cresce, o filósofo filosofa. Houve um filósofo, inclusive, que de tanto filosofar chegou à conclusão de que não era a barba que crescia a partir de seu rosto, mas sim o contrário: o rosto é que brotava das raízes de sua barba. Desde então, nunca mais chegou perto de uma gillette, com medo de que seus pêlos ficassem pairando no ar, diante do espelho, enquanto seu corpo escorreria pelo ralo da pia.

Para finalizar, qual é a grande verdade que o senhor já encontrou na vida?

Não existe verdade, garoto. Existe convencimento

Nota do entrevistador:

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui.

Compuseram o Ser Inexistente nesta terceira entrevista: Antonio Prata, José Henrique Lopes, Hélio Pellegrino, André Toso, Camille Claudel, Paulo Leminski, Ovídio Martins, Ian McEwan, Machado de Assis, Cleci Silveira, Santo Agostinho, Renato Janine Ribeiro, Aforismos da Grécia Antiga (autores desconhecidos), Chico Buarque,

Bernard Shaw, Aldir Blanc, Elizabeth Roudinesco, Jesus Martín-Barbero, Fernando Pessoa

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