Que o mundo “esteja fervilhando de patifes e patifas”, é uma verdade. A natureza humana é imperfeita e, portanto, seria estranho ver na terra somente os justos. E achar que o dever da literatura consiste em separar o “grão” do monte de patifes é negar a própria literatura. A literatura artística tem esse nome justamente porque retrata a vida tal como ela é na realidade. Seu objetivo é a verdade incondicional e honesta. Reduzir sua função a uma especialidade como a de separar o “grão” seria para ela tão mortal quanto obrigar Leviatan a pintar uma árvore, proibindo-o de reproduzir sua casca suja e folhas amareladas. Concordo que “grão” é coisa boa, mas escritor não é confeiteiro, nem maquiador, nem bufão. É pessoa empenhada, contratada pelo sentimento de seu dever e consciência. Quem entra na dança tem que dançar, e, por mais horrível que lhe pareça, deve vencer a própria repulsa, emporcalhar a própria imaginação com a lama da vida… Ele é como um simples repórter. O que você diria de um repórter que, por repulsa ou pelo desejo de satisfazer os leitores, descrevesse apenas prefeitos honestos, damas sublimes e ferroviários virtuosos?

Para os químicos nada na terra é sujo. O escritor deve ser tão objetivo como um químico; deve livrar-se da subjetividade da vida e saber que os montes de estrume desempenham na paisagem um papel digno de todo o respeito, e que as paixões más são tão inerentes à vida quanto as boas.”

 Carta escrita por Anton Tchékhov a Maria Kisseliova, Moscou, 14 de janeiro de 1887. Trecho extraído do livro “Sem Trama e sem Final”, com seleção e prefácio de Piero Brunello, Ed. Martins Fontes, páginas 55 e 56.

 André Esposito Roston está na praia em missão especial para o Sete Doses nesta segunda-feira.

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