A embarcação oscila com a força das ondas e o homem se escora no mastro da vela que se fora dias atrás. Segue ligeiramente sem rumo, ziguezagueando na vertical em um movimento contínuo e nauseante. A tempestade do dia anterior destituiu-o de qualquer pertence ou companhia, diminuindo gravemente as opções que havia para se salvar. Foram-se uma bóia, um colete salva-vidas, além do próprio capitão e a carta náutica. Até os mais nobres se deixariam abater pela autopiedade infligida pelo fracasso iminente, mas a desesperança não o esmorece. 

Os dias ao mar sem recursos – já são dois – o definham. Seus músculos são consumidos pelo metabolismo de um homem em pré-óbito. Sobram os ossos, rígidos, nus, debaixo da pele maculada pelo sol, o sal e o sofrimento. Seus pés mal sustentam o peso dos órgãos, involuídos. Os cabelos encaracolados estão quebradiços e secos, sem o viço dos dias repletos de mais cores além do azul celeste, o verde e o vermelho das chagas causadas pelas cordas, carcomidas pelo atrito da madeira com os cipós.

A morte o aguarda a estibordo, mas ele se resigna com coragem.

A água salgada molha o rosto. Ele está no quarto, acovardado, mais um fracasso protagonizado. O homem não tem a força do outro que ilustrou sua epifania. Sofre intensamente calado. Os murmúrios crescem, a glote se fecha, o pânico se instala, o ar rareia, os pulmões vacilam, o coração desacelera até estancar; os olhos úmidos se fecham pela última vez.

Abandonando-se, morre.

Todos vivemos para morrer, mas com diferentes ímpetos.  

Ricardo Torres às vezes tem epifanias às terças-feiras para randomizar suas contribuições ao Sete Doses

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