Proposta de símbolo para a revolução do século XXI

“Ajudamos a manter a paz com o sacrifício de nossos soldados e a força de nossas armas” Trecho do discurso de Barack Obama durante a entrega do Prêmio Nobel da Paz

Passei o início da tarde do último domingo a lavar – com paciência e esmero – alguns legumes e frutas comprados na feira. Se eu não me engano, uma dúzia de pêssegos e ameixas, dois calhamaços de cebolinha e salsinha, dois pés de alface, além de alguns tomates e rabanetes. Colocava-os na água corrente e os enxaguava devagar com a ponta dos dedos. Um por um. Cada folhinha da salsinha, toda a superfície das frutas e os cabos esbranquiçados que sustentam as cebolinhas. Enquanto realizava este ato mecânico e aparentemente banal, pensei que era, talvez, o mais próximo que um ser humano pode chegar da revolução. Sim, lavar legumes na pia de casa é ato dos mais “fora da curva” que alguém pode realizar nos dias de hoje.

Não conseguiria definir com fidelidade a paz e a alegria que senti ao observar todos os legumes limpos em consequência de um trabalho que eu mesmo realizei. Percebi, ali, que aquilo foi a coisa menos alienante e com mais sentido que já fiz em toda minha vida prática. As reportagens que escrevi, todos os trabalhos que acumulei, todas as horas despendidas com compromissos profissionais que assumi não se comparam ao ato de lavar legumes. Ao lavar legumes, seu distanciamento do que ocorre lá fora é tão monstruoso que você se sente por um minuto descolado da realidade. Suas atitudes passam despercebidas: não atingem ninguém, não ocasionam brigas e desentendimentos, não geram mal entendidos. Você se exime da culpa de prejudicar e ser prejudicado. Debruçado sobre a torneira que escorre e concentrado em uma atividade despretensiosa, a engrenagem de frustrações e desespero que nos carrega diariamente são interrompidas.

Em tempos em que os legumes são vendidos em embalagens plásticas, inchados pelos efeitos de fertilizantes, comprá-los na feira, ainda sujos de terra, e lavá-los com suas próprias mãos, configuram-se como atos revolucionários de homens que nadam contra a corrente da pressa e da maldita eficiência. Lavar legumes é uma perda de tempo bonita e honesta. É uma celebração ao simples e óbvio. É um não querer viver como todos os outros vivem. Lavar legumes, com paciência e afeto, é estar situado em uma esfera acima da maioria medíocre que corre feito louco para chegar a lugar nenhum. É deixar escorrer pelas mãos a água da torneira e a angústia do tempo que se dissolverá de qualquer maneira, não adianta o que acontecer. Lavar legumes é como morrer por alguns instantes. Por isso, prostre-se na pia de sua casa e tenha certeza: passeatas, debates, ONG’s e partidos jamais serão mais revolucionários do que o ato de lavar legumes. O não se envolver com nada – única forma de não sujar as mãos – forma o caráter do verdadeiro herói revolucionário moderno. Infelizmente.

Obs: essa “seção” Desabafo pretende reclamar de alguma coisa sem usar muito a razão. Não me importo com argumentos sólidos. Só escrevo o que penso, por mais absurdo que pareça.

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André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e não sabe  muito bem a diferença entre verduras e legumes

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