Paella valenciana servida em uma taberna no museu catalão El Poble Espanyol

A capital da Catalunha é apontada pelos outros espanhóis como um lugar de gente com soberba. No entanto, o que é considerado separatismo é, na verdade, a hipervalorização de elementos culturais muito particulares, que surgem nas conversas, no futebol, comida e, obviamente, na língua. Nas ruas de Barcelona, o motorista dá informações, a caixa oferece sacolas plásticas e as crianças incomodam seus pais em catalão. Todos falam castelhano, mas, por razões históricas que remontam à reação ao franquismo, optaram por essa aberração deliciosamente corrupta do latim. Apesar do que podem achar os madrileños ou os sevillaños, possivelmente não exista lugar mais plural e tolerante em toda a Espanha.

Uma das boas provas disso é o El Poble Espanyol, que completou 80 anos em 2009. É o museu mais interessante para quem quer experimentar a Espanha e só pode fazê-lo via Barcelona, como eu fiz. Construído em razão da Exposição Internacional de Barcelona, em 1929, ele abriga vários edifícios e demais construções de toda a Península Ibérica que não fala português. Tudo isso justamente no coração “independentista” da Catalunha. São 117 cantos com réplicas de praças, castelos, igrejas, monastérios, torres, jardins de inspirações e matrizes diversas reunidas pelo arquiteto modernista Puig i Cadafalch. Sorte é que alguma boa alma impediu que o local fosse demolido após a exposição do ano da crise financeira mundial. A velha. 

Em uma tarde, dá para pisar nas ruas de uma versão dos bairros brancos da Andalucía, jogar conversa fora nas praças de Aragón ou falar mal da igreja católica nas escadas de um monastério romano catalão. Pode-se ter uma boa amostra de como um povo que já reinventou a cartografia mundial nas Grandes Navegações soube absorver os elementos culturais de seus conquistadores e conquistados. Para o bem da história arquitetônica, por exemplo, muçulmanos tiveram suas mesquitas convertidas em igrejas católicas apostólicas romanas nas Cruzadas, sem que o conjunto fosse dissolvido pelos séculos. Isso permitiu, por exemplo, que permanecesse erigida até hoje a Torre da Igreja da Nossa Senhora da Assunção, em Zaragoza, repleta de azulejos mouriscos, traços geométricos e a inventividade do renascentismo. Ela é o principal expoente da arte mudéjar (estilo hispano-muçulmânico) e está situada originalmente na cidade de Utebo.

El Poble Espanyol também te dá a chance de experimentar o benefício da mestiçagem cultural na expressão mais prazerosa entre todas: comer. Restaurantes emulam tabernas medievais e monastérios para ambientar opções do cardápio de toda a Espanha. Experimentei uma paella valenciana, pouco generosa em um dos ingredientes que a caracteriza – frutos do mar –, mas que funcionou bem porque apresentou outro ingrediente que a caracteriza – arroz escurecido, de consistência espessa. Para o vinho, apelei ao nepotismo e não me arrependi, ao contrário do Sarney (será mesmo?). Terminei a tarde no museu que existe dentro do próprio museu. Algumas raras ilustrações de Picasso e Miró, pinturas contemporâneas, além de um grande acervo de obras de artistas plásticos diversos. Tudo posicionado no local ideal, a capital da multiculturalidade dentro da mais multicultural das capitais espanholas.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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