Orla da praia de Copacabana, Bolívia, vista do topo do Morro do Calvário

 

Já que esta é a semana em que 2009 vira história, presto uma homenagem a uma cidade que me acolheu muito bem no réveillon de 2006. A intenção inicial era seguir a Cuzco, no Peru, lugar dos mais recomendados no mundo para passar a virada. Como não conseguiríamos chegar a tempo, estacionei em Copacabana, cidade minúscula à beira do lago Titicaca. Tive a grata surpresa de perceber que muitos dos que ali estavam fizeram uma opção, o que possivelmente indicava que o lugar tinha potencial.

Cheguei no próprio dia 31, acompanhado de um amigo mochileiro. Já no caminho do ônibus, notávamos como a simpática cidade se estabeleceu na orla do lago navegável mais alto do mundo. O nome realmente denota uma relação íntima com o bairro homônimo carioca. Uma réplica da virgem de Copacabana, a padroeira boliviana, foi construída no Rio de Janeiro no século XIX por um fiel português e instalada na igreja convertida posteriormente em Nossa Senhora de Copacabana. A original, no entanto, permanece na sede da Bolívia.

No sobe e desce das ladeiras do lugar, conheci o comércio local rico em artesanato inca e aymara. Normalmente coloridas, as peças dos artesãos bolivianos ostentavam um brilho a mais pela ocasião. Alpacas – uma lhama pônei – passeavam pelas ruas enfeitadas com laços de múltiplas cores, cuspindo nas pessoas e fazendo a alegria das crianças. As cholas pediam suas moedas em troca de fotos com os turistas, religiosos – alguns nem tanto – em peregrinação pelo Morro do Calvário, nomeado sugestivamente pela dificuldade empregada para vencer seus incontáveis lances de escada que culminam na Igreja do Calvário. No fim, a recompensa de ver como o lago se estende até onde a curvatura da Terra não permite enxergar o limite territorial.

Normalmente, o lugar funciona apenas como um ponto de parada para a Ilha do Sol, uma terrinha insular que abriga algumas terrazas incas e pré-incaicas, além de barcos feitos de junco, uma espécie de palha resistente que cresce em todo o lago, tanto do lado boliviano quanto peruano. Como eu viria a descobrir depois, a porção boliviana é muito mais bonita, bem conservada e limpa do que a parte que coube aos vizinhos. Isso faz com que sua orla seja aproveitada realmente como uma praia, inclusive no que diz respeito aos rituais de réveillon, mas sem biquínis e o calor. A temperatura média fica em 16 graus celsius, mas à noite pode chegar a apenas 5 graus, como ocorreu naquela noite. Isso não impediu que um arquiteto chileno mais animado quitasse suas roupas e pulasse, nu, nas águas daquela piscina majestosamente gélida.

Imbuídos do espírito bagunceiro que habita todo brasileiro, reunimos uns conterrâneos que lá estavam e pulamos sete ondas no Titicaca. Eram marolinhas que o vento trazia, mas o pisco que tomávamos fez com que o efeito obtido fosse praticamente o mesmo de um reveillon no Rio, com os turistas do mundo inteiro, fogos de artifício, música, bebidas e seus reféns, barquinhos com oferendas para Iemanjá (ou Pachamama) e a epifania da virada.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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