Resolvi interromper a série dos posts anteriores para dedicar algum carinho à São Luiz do Paraitinga. Ainda que tudo soe piegas, quis fazê-lo. Para além do que mostram as notícias de uma pequena cidade histórica afogada, existe uma alegria coletiva de milhares de pessoas que foi igualmente devastada pelas águas. Ironicamente, em frente àquela igrejinha cujas torres ruíram em cadeia nacional, a festa pagã de três fevereiros me proporcionou os dias mais eufóricos da minha vida.

Foi lá que tive conversas interessantíssimas nas madrugadas desanuviadas dos casarões e seus portões cerrados; assumi paixões eternas de alguns minutos; apanhei injustamente da polícia depois de orientar 65 pessoas a entrar no pequeno coreto auxiliar; foi onde pude me despedir adequadamente da infância e exercitá-la plenamente nos seus derradeiros dias; foi onde curei dores pungentes com o remédio da desibinição e da coletividade; onde raras vezes fui tão feliz com um pouco tão muito.

Para a posteridade, São Luiz do Paraitinga perecerá como qualquer outra cidade que não possuía estrutura para um enfrentamento decente das catástrofes naturais.

Para os órfãos, São Luiz permanecerá como o destino das cotias do Sertão, que traziam notícias e confusão; onde as amoras em flor, na boca do povo, inspiravam palavras de amor; onde se tem que brincar, tem que gritar e andar em frente naquela linha, porque a curva é perigosa; o lugar onde, para quem queria entrar na folia, era preciso apenas um lençol.

Ôô Barbosa, ai que dor no coração…

Comentário de uma moradora, no blog do Luis Nassif.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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