Vulcão Villarica nevado em pleno verão ilustra porque Pucón é, cada vez mais, destino do mundo inteiro

Você quer ir a Campos do Jordão, mas não quer encarar os frequentadores habituais da alta temporada. Ou então você quer ir a Bariloche para se aventurar nos esquis sem ouvir a turma da CVC em cada esquina pedindo licencia para desviar da multidão. Se você quer refinar ainda mais sua busca, excluindo argentinos e turistas de pacote da jogada, seu destino é Pucón, no Chile.

O destino merece a visita, mas exige paciência para chegar até lá. São cerca de 800 km de Santiago percorridos à noite, depois do desembolso de 7 mil pesos chilenos (em 2007), ou R$ 24. Se poltrona de ônibus leito é luxo para você, então a viagem de 10 horas transcorrerá sem desconforto. De outra maneira, existem voos diretos desde a capital, mas apenas na alta temporada (janeiro e fevereiro).

A principal atração é essa aí da foto. Tudo na cidade tem relação com o vulcão Villarica, que batiza outro vilarejo próximo, mas cujo acesso mais notório se dá mesmo por Pucón. A região é a porta de entrada da Patagônia, onde o viajante se acostuma a ver diversos picos nevados – normalmente vulcões adormecidos –, nos quais se praticam quedas de esqui, trekking e snowboard. Na pequena cidade chilena, dá para se divertir com a neve sem morrer de frio de muitas maneiras.

Pucón é um manancial de turismo de aventura, ecológica e rural. A partir dos pacotes das inúmeras agências de turismo, é possível alugar bicicletas, quadriciclos, equipamentos de esqui ou snow e os próprios passeios com tudo incluído. Qualquer atração fica a uma distância média de 25 a 35 km do centro da cidade, o que indica muito tempo para aproveitá-las.

Um roteiro decente de aventuras deve começar por uma caminhada até o topo do Villarica. Uma caminhonete ou van te deixa na porta do centro de esqui, a 18 km da cidade, com uma mochila cargueira repleta de equipamentos, como botas, crampons, sticks e outros itens dos quais jamais tinha ouvido falar. Um guia te explica como cada um é essencial para se vencer os 2.847 metros do vulcão – incluindo óculos escuros para evitar a cegueira da neve. Um teleférico leva as hordas de novos alpinistas para uma base, na qual se inicia a caminhada. Sempre na diagonal, os passos devem ser cautelosos, porém firmes, enterrando o pé na neve para garantir o equilíbrio. Acima de você, o cume, poucas nuvens e o nada azul do céu. Vencidas várias horas, chega-se ao topo, onde é difícil respirar pela quantidade de enxofre que o mal-educado vulcão expele. Infelizmente, não dá para permanecer muito tempo. A vista se assemelha ao que se vê da janela de um avião: as casas, carros, lagos e montanhas se tornam itens de maquete e o horizonte é puro, de um azul profundamente inspirador. Se o retorno não é idílico, pelo menos é extremamente divertido. O guia te mostra como usar seu próprio corpo como prancha e, assim, deslizar por tudo o que antes era subida, em uma espécie de tobogã gelado. Sim, tem gente que se machuca, mas em geral é seguro se você faz o que te mandam.

Subir o vulcão é massacrante, mas Pucón tem a solução. Para recuperar cada parte do corpo que lateja, as fazendas próximas ao centro oferecem, além de um cenário bucólico de lagos, cabras e extensas montanhas esverdeadas, águas termais. Um passeio contratado na cidade ou mesmo um táxi podem te levar a algumas dessas áreas revigorantes. Vale esticar até o lago Caburgua, que abriga uma praia de água doce muito frequentada pelos locais. No caminho da ida ou da volta, os Ojos de Caburgua são um colírio indispensável. Trata-se de uma formação rochosa através da qual se enxergam piscinas naturais de um verde leitoso e uma temperatura tão fria que a torna impraticável para o mergulho. Já bem próximo à cidade, o rio Liucura provê uma paisagem de propaganda turística da Suíça. Pare em uma das pontes que o atravessam para esvaziar a cabeça diante da correnteza, as pedras e as montanhas que o circundam.

São inúmeras opções aventureiras e contemplativas, mas Pucón se torna um destino especial também por suas variações de hospedagem. A escala compreende um hotel sete estrelas ou uma hospedagem de família. A segunda opção pode ser encantadora, como comprovei com a Hospedaje Carmen, uma simpática senhora fã das novelas brasileiras. A casa é toda em madeira, como toda a vizinhança, o teto em V para oferecer caída à neve dos invernos rigorosos, quartos com beliches e lençóis cheirando amor incondicional de avó. A cozinha fica à disposição dos viajantes para os miojos noturnos e intercâmbio cultural. Da janela do quarto, dá para ver como o céu cintila enquanto se prepara para receber a generosa escala de cores da manhã de um novo dia calorosamente frio. Pucón é calefação para o corpo e o espírito.

Ricardo Torres escreve às terças-feiras para o Sete Doses

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