– Pronto, essa é minha história trágica, pode me dar o brownie.

– Eu concordo que é triste, mas você não quer ouvir a minha antes.

– Claro que eu quero, mas duvido que ganhe da minha.

– Tá, vamos ver. Tudo começou quando eu estava nas Bahamas tomando sol.

– Nossa, deve ser bem triste mesmo, hein?

– Não me interrompa. Ouça. Eu estava lá, com o meu filho e a minha ex mulher. Estávamos em uma daquelas crises quase voltando, essas crises acontecem sempre que percebemos a coisa maravilhosa que juntos colocamos ao mundo. Mas, enfim, eu estava contemplativo naquele dia. Você pode imaginar o porquê. Ver meu filho de dois anos, feliz, com aquele cenário de fundo encheu meu olho de lágrima. O pequenino então me pediu para entrar no mar. Coloquei as duas bóias no seu braço e fui, apto da segurança que só um pai pode passar a um filho. A água estava morna, pequenos cardumes de peixes sufocavam meu pé e meu filho segurava com força a ponta do meu dedão. Foi quando as cores do mar mudaram e meu corpo fraquejou, sentia o mundo agressivo, mas não por causa das ondas, comecei a perder os sentidos e só pensava o que aconteceria com o meu filho. Desmaiei.   Segundo relatos, ele ficou lá, olhando para baixo e dizendo: papai dormiu. Eu não tinha dormido evidentemente. O socorro chegou e me encontrou desacordado embaixo da água por algum tempo. Por sorte, estávamos numa área sem ondas, então meu filho conseguiu ficar boiando sem problema. Fui para o hospital, sendo médico, sabia que meus colegas seriam claros e descobririam o problema de cara. Descobriram. Eu tenho um tumor na cabeça, do tamanho de uma laranja.

– Cacete.

– Faz uma semana que eu descobri e resolvi viajar por um tempo para espairecer, por isso vim parar no Rio de Janeiro. Semana que vem eu volto para minha cidade e faço o exame para descobrir se é maligno ou benigno.

– Eu não sei nem o que falar, juro.

– Você pode falar o que quiser, estou bem resolvido com isso. Nos últimos dez anos, eu estudei e tratei pessoas com esse tipo de problema. Sei que é difícil, sei que será mais difícil ainda, semana que vem estarei parecendo um Frankstein, mas você quer saber. Todo dia eu agradeço por esse tumor estar em mim e não em alguém que eu ame. Pode parecer cruel, altruísta, mas na verdade é egoísta. Eu não quero perder as pessoas que eu amo. Sei que se eu morrer eu também vou perde-las, mas isso é um outro problema, é questão de religião, de acreditar em Deus ou não. Mas eu não quero ver as minhas pessoas com dor, eu não sei que eu aguentaria perder meu filho, ou vê-lo sofrer, eu não aguentaria. Mas eu sei meu limite e sei que eu posso lutar contra essa doença.

– Tá… você ganhou o brownie e minha admiração. Quando você chegou aqui eu achei que você era apenas mais uma pessoa, agora eu sei a força que você tem. Estou impressionada.

– Você está com pena de mim?

– Não, nem um pouco. Admiração é a palavra.

 

Dica de filme do dia: Onde Vivem os Montros. Spike Jonze cria uma história cruel e doce sobre a infância. Importante, esse não é um filme para crianças é um filme sobre crianças.

Ana Luiza Ponciano escreve aos sábados no Sete Doses

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