Jean teve sua perna amputada do joelho para baixo. Não havia anestesia no hospital de campanha. Teve febre, com momentos de algum delírio, por dois dias, sem poder acumular forças para se colocar de pé. Hoje se levantou, contra as indicações médicas, conseguiu uma muleta improvisada e saiu para a rua. Andava bastante tonto, sentido enjôos fortes, como se estivesse um pouco embriagado. Quase não sentia dor. Mas sentia a perna amputada, desesperado por não poder mexê-la.

A cada quadra havia ruínas de imóveis, em frente a pequenos montes, mais ou menos esparsos, de corpos que exalavam um cheiro forte de decomposição, acompanhado do zunido de centenas de moscas.

Encontrou um grupo de pessoas que brigavam sobre os escombros de um mercado. Três homens maiores e mais fortes conseguiram arrancar dos demais dois pacotes de desodorantes e sabonetes, que passaram com euforia em seus corpos.

Pouco mais a frente um rapaz era espancado no chão, com golpes de pedaços de madeira na cabeça, até largar o pacote de bolachas que tinha em suas mãos. Não se levantou mais.

Jean passou pela igreja que desmoronou por inteiro, com exceção da cruz em que se encontra pregada a imagem de Jesus. Havia inúmeros jornalistas filmando e fotografando a curiosa construção. Preparando reportagens a respeito, como se a preservação daquele Jesus fosse um verdadeiro milagre em meio a todo o caos e destruição da cidade.

No quarteirão seguinte uma mulher chorava, rezava, e gritava que sua irmã estava viva sob os escombros da casa. Mas iria morrer, porque não havia pessoas para realizar o resgate.

Depois de vencer alguns quarteirões Jean chegou às portas do cemitério, e começou a procurar por sua filha. Outras pessoas realizavam a mesma busca por seus familiares. Um jornalista se aproximou, e ofereceu ajuda para procurá-la. O calor era muito forte, e o cheiro beirava o insuportável. O repórter vomitou duas vezes. Jean três. Passou-se uma hora e meia, até que o pai encontrou a criança. O bebê tinha as pernas quebradas, e sua barriga estava inchada, como a de todos os outros corpos podres à sua volta.

Jean desatou a chorar e gritar. O repórter pegou imediatamente a câmera e flagrou aquele instante. Jean terá sobrenome. Ganhará a dignidade dos humilhados e ofendidos. O peso do primeiro país subdesenvolvido das Américas a conseguir independência.

Voltará para o hospital carregando sua filha. Ao entrar na tenda improvisada o corpo será retirado de sua posse, para seu desespero, e jogado em uma sala com inúmeros outros mortos. A enfermeira tentará acalmá-lo, garantindo que todos que lá estão terão um sepultamento digno.

Enquanto isso, outro repórter entrevistará um médico voluntário: “Os corpos não provocam epidemia, isso é um mito, a não ser que estejam sobre uma fonte de água. As nossas preocupações são outras.” (…) “Não sei como essas pessoas vão superar isso depois do fim da ajuda internacional. Porque nós sempre ficamos só um pouquinho.” (Folha de São Paulo, Mundo, “Em hospital improvisado, amputação é sem anestesia” 16.01.2010).

E um engenheiro, em local próximo, declarará: “A queda das edificações, na escala verificada, além do forte abalo sísmico, é claro, foi determinada em grande parte pela baixa qualidade dos materiais de construção e por falhas básicas no projeto de engenharia das construções”

Depois de amanhã, ou em algumas semanas, Jean se levantará e abrirá uma portinha que dá para um quarto abarrotado, muito escuro e silencioso. Não sem pedir licença aos moradores de São Luís do Paraitinga, aos meninos da Candelária, às vítimas de Eldorado dos Carajás, aos sobreviventes do tsunami asiático, às vítimas de estupro, às mulheres espancadas em suas casas, aos que sofrem com a fome endêmica, com o preconceito diário, e a um número indefinido e infinito de outros que não têm a menor necessidade de serem mencionados.

Pouco ou nada irá se falar da ocupação americana do Haiti no início do século XX. Da aliança entre Papa Doc e suas 30 mil vítimas com os Estados Unidos da América, seguido por seu Baby Doc. Como pouco se fala ou se lembra da aliança entre Sadam Hussein, Turquia, as vítimas e exilados curdos, e os EUA contra o avanço de grupos muçulmanos xiitas. Ou de como a cidade-luz parisiense flutua de modo injustificável sobre o sangue do mundo, rechaçando e/ou controlando suas periferias revoltosas.

Que a tragédia causada por um terremoto, pela força da natureza, cause comoção e motive atos de solidariedade é um sinal da débil existência de um patamar civilizatório entre nós. Que a ação humana que, via de regra, cria e perpetua por si só o sofrimento, a miséria e a opressão – quando não simplesmente agrava os efeitos das catástrofes naturais – passe praticamente  despercebia é vergonhoso e assustador.

Onde estava o Haiti, com seu racionamento de água e energia elétrica em Porto Príncipe, antes da semana passada?

André Esposito Roston escreve para o Sete Doses às segundas-feiras.

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