Lindolfo era guri matreiro de fazer coçar os olhos de tanta inveja. Desde que a vitória havia lhe avisado que sairia de férias de sua vida, ele sentou-se na copa de uma árvore à espera dos fracassos que lhe chegariam aos borbotões, sem cerimônia.

Não era altivez. Tudo não passava de um misto de sagacidade e covardia juvenil. Morava nos galhos altos como mera defesa das derrotas que serpenteavam no duro chão do cotidiano. Vivia lá em cima com hábitos simples, apenas com o essencial para notar e ser notado, com a meta de nunca importunar os passos em caminhos alheios.

Havia constituído, praticamente, um ninho. A árvore lhe dava tudo, menos companhia e a grande diversão de sua vida: partidas de futebol transmitidas pela televisão. Sendo assim, Lindolfo descia, vez ou outra, para ver uns joguinhos e quiçá encontrar alguém.

De perder as contas eram as vezes que encantava-se por moças e, posteriormente, abria o jogo com toda a sinceridade de um bebê. Detestava tautologia. Se rodava, era para sair do lugar, não para perder-se em círculos davincianos. Assim, dava a palavra:

– Olha, você rouba-me o ar, mas quem tira-me a gravidade mesmo é o futebol. Em dia de jogo, ou você me acompanha, ou bate perna por aí, ou segue sua estrada.

Assim viraram-se centenas de páginas de calendário com “xizinhos” em tinta vermelha. Se pudesse, por um dia, viver o amor e a alegria, Lindolfo jurava que os daria a elas. Falava de amor com os dois pés atrás, até o dia em que Lindalva passou tão bonita naquela rua banhada de sol. Como cão de desenho animado que flutua na horizontal seguindo o cheiro de frango assado, Lindolfo viu sua alma desprender-se da matéria e seguir aflita, esquecendo até do futebol.

 

 

Lucas Nobile escreve às sextas-feiras para o Sete Doses

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