Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010. 16 horas.

Não ando sentindo mais nada. Meus impulsos não existem mais, meus sentimentos estão cinzas, mortos e acabados. Sou uma pessoa que não sente mais nada, que não quer mais nada, que não se emociona, que não se constrange, que não fica triste nem feliz. A indiferença bate em minha porta de forma assustadora e eu não consigo pensar em nada a não ser em não fazer nada. Pra mim, felicidade e tristeza se assemelham e não significam mais nada. Estou absolutamente indiferente, esperando a vida ou a morte como quem espera um café. É como se, devagar, estivesse prestes a sair de um lugar escuro para chegar a um lugar iluminado, onde eu conseguisse enxergar tudo e a todos, onde conseguisse enxergar a mim mesmo, sem fantasias, sem máscaras. Isso dói, mas me dá a perspectiva de que saberei qual o meu futuro e o que eu realmente desejo da vida.

Meu medo é perder o desejo, é não conseguir mais saber o que eu realmente quero e não saber nunca mais. Meu medo é que mude muitas coisas em mim que eu aceitava como verdades absolutas, que minhas crenças passem a ser diferentes. Meu medo é crescer e perceber que a realidade é isso mesmo, cinza e sem graça, e que o máximo que posso fazer é temperá-la com alguns livros e filmes que me dêem alguma emoção. É perceber que a vida é essa coisa chata mesmo e que sentir é diferente de ter emoções. Que a graça de ter emoções, apesar de intensa, é falsa. Perceber que o sentir, coisa que ainda desconheço, possa vir a ser algo mais profundo e intenso do que o simples emocionar-se.

Mas hoje não sinto nada. Quando todos os meus amigos me deixaram eu não senti nada: não senti tristeza por eles. Quando ganhei minha última promoção no trabalho eu não senti nada: não senti alegria por mim. Não senti nada, é como se eu não quisesse aquilo, mas também é como não quisesse nada, tanto fazia. Vou visitar meus parentes e não sinto nada por eles. Fico um mês sem visitar meus pais e não sinto saudade. Chego em casa, encontro minha esposa e não sinto mais nada. Vejo uma mulher gostosa na rua e não sinto mais tesão, não sinto mais nada. Estou absolutamente sem vontade de fazer sexo ou de fazer qualquer coisa. Dormir tem sido a minha melhor saída. Tudo que faço parece sem gosto e sem graça. Não tenho vontade nem de sair com meus amigos, nem mais de beber e fumar. Perdi a vontade de tudo. Não estou triste, mas também não estou feliz. É pior: estou indiferente. Se o mundo cair na minha cabeça, vou continuar parado no mesmo lugar, não vou me mover. Cansei, cansei até de pensar. Estou me sentindo nada. Não estou sentindo nada. Não estou triste, não estou de saco cheio das pessoas e do meu trabalho, não estou deprimido. Acordo na segunda, me troco e vou trabalhar, sem reclamar, sem bradar aos céus que a vida é injusta, sem precisar de um uísque para encarar meu dia. Mas também não saio feliz. Eu simplesmente não sinto nada. Como eu queria uma depressãozinha agora.

O sexo me parece cada vez mais uma obrigação. Só preciso gozar, não quero mais estar com alguém e dividir caricias e amores. Só tenho vontade, como um animal selvagem, de esporrar meu sêmen em qualquer buraco para satisfazer meus impulsos e instintos quando necessário. Poderia muito bem viver em uma ilha, isolado do mundo, apenas me masturbando quando necessário, bebendo quando tenho sede e comendo quando tenho fome. Sinto-me apenas movido por instintos e eles estão em meio a uma névoa: não consigo sequer alcançá-los. O sexo não me parece nojento, não me parece sacanagem, mas também não me parece ser algo sagrado. Não estou mais atrás de simbiose, não estou mais atrás de uma ligação espiritual. Só quero, quando preciso, gozar e pronto, sem nenhuma vontade diferente. Mas na verdade nem de gozar tenho mais vontade, me perco em um turbilhão branco e sem sentido, onde tudo que faço e penso é inútil. Não concordo com o mundo, não concordo com as pessoas e não concordo comigo mesmo. Perdi a minha personalidade, talvez nunca tenha tido uma e agora precisarei construí-la do zero. Estou perdido e as pessoas que me amam percebem e ficam perdidas também. Não sinto mais as pessoas próximas de mim, é como se eu as estivesse afastando. Tornei-me chato, sem graça, sem sal, sem malícia, sem ingenuidade. Tornei-me um bicho frio e que só pensa na inutilidade das coisas. Perdi completamente a esperança de ser feliz com alguma coisa, seja ela maravilhosa ou não. Perdi a vontade de viver, mas também não tenho vontade de morrer. Não sei mais do que tenho vontade, não sei mais o que é ter vontade. Não estou triste com isso, não me sinto deprimido, só me sinto menos humano e menos eu mesmo. Sinto que uma mudança brusca levará para sempre o que eu fui um dia. Aguardo ansiosamente por sentir alguma coisa de novo. Nunca pensei que o maior castigo possível para um ser humano é deixar de sentir, de amar, de sofrer, de arrepiar-se. Quedar-se em depressão profunda é melhor do que esse cinza sem graça que se tornou minha existência. A realidade me sufoca por não ter espaço para sentimentos. A realidade é cinza e só nos podemos colori-la. Eu juro que eu queria uma depressãozinha agora.

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses e sabe que , no fundo, todo homem  é um pouco patético

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