O texto dessa semana foi publicado na revista Bravo! no ano passado. Trata-se de uma análise do conto Judas Iscariotes, de Leonid Andreiev. É um dos contos mais geniais que já tive a oportunidade de ler, por reconstruir a figura bíblica de Judas de forma humana e profunda. Realmente essa semana não tive tempo para sequer pensar em algum texto inédito.

Em “Judas Iscariotes”, o autor russo Leonid Andreiev (1871-1919) se utiliza de uma famosa história bíblica para tratar das contradições humanas. A traição de Judas a Jesus Cristo é recontada por meio de uma narrativa elegante e inteligente que analisa quase psicanaliticamente os personagens envolvidos. Contemporâneo ao nascimento da psicanálise e ao início da teorização sobre as vontades do inconsciente, Andreiev levanta questões existenciais sobre as reais motivações do ato de Judas e o porque de suas consequências.

No conto, Judas aparece como um homem contraditório, ora visto como um mau caráter mentiroso, ora enaltecido pela sua inteligência e visão realista do mundo. O próprio leitor, em seu julgamento, engana-se sobre as verdadeiras motivações do traidor. Para o Judas de Andreiev, não existem pessoas bondosas, mas sim homens aduladores e astutos que conseguem ocultar seus atos vis. Para ele, como para o pai da psicanálise, Sigmund Freud, é preciso enxergar toda a escuridão dos homens para só depois iniciar uma busca pela verdade.

A traição de Judas, na história do contista russo, é resultado de um destino que não poderia ser desfeito; uma força estranha que, pela visão simplista dos apóstolos, é vista como uma manifestação do diabo. Mas o demônio, aqui, necessita existir: sem o mal não existiria o bem. Judas sabe disso e Jesus, que não reage, mas parece saber de tudo, deixa-se levar por essa força incontrolável e necessária.

As contradições se acentuam ainda mais na figura do próprio Judas, que após a traição espera ansioso por uma reviravolta. Ou que os soldados que o prenderam compreendam que se trata do messias e beijem os seus pés ou que seus seguidores o defendam no momento final. Para seu desespero, porém, nada acontece e Jesus é crucificado. Sua lógica parecia estar certa: a linha entre o certo e o errado – ou entre o bem e o mal – é tênue e quase sempre se cruzam. Judas conclui que os verdadeiros traidores foram os apóstolos, que não se sacarificaram por aquele que acreditavam ser o Salvador. A verdade disseminada pelo messias, dessa forma, estava morta: “E que é a verdade nos lábios dos traidores? Não se convertem em mentiras?”, indaga Judas pouco antes de se suicidar.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

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