Ela voava todas as noites. O ritual se repetia. Esperava impacientemente que o mundo silenciasse; que apenas um e outro carro desafiassem a escuridão; que todos dormissem. A partir de então, sentia-se livre para viver.

Levantava-se da cama com o cuidado de não amassar o lençol rendado. Caminhava até a beira da janela na ponta dos pés. Destravava a vidraça, subia as persianas e olhava sete andares para baixo. Inspirava fundo (sentia o ar percorrer todo o corpo, como um combustível) e fechava os olhos.

De repente, lá estava ela entre as estrelas. Sua face corava diante do brilho dos astros. E, se houvesse algum homem de altivez aguçada, certamente poderia avistar aquela mulher iluminada nesse instante. Mas crer que alguém deixasse de se preocupar com o chão para sonhar com o céu era utopia. Sempre haveria um teto sobre as casas, até para aqueles que não possuíam uma. E todos dormiam.

Ela não. Deixara o peso da existência sobre a cama para flutuar como uma pluma. Estava nua. Abria os braços em 180 graus e sentia o vento conduzir uma pessoa que já não se prendia à aparência. Os cabelos grisalhos, agora esvoaçantes, revoltavam-se contra qualquer penteado. As rugas enrijeciam com o frio da noite. Os ouvidos, mesmo tapados por tamanha plenitude do espírito, recobravam a sensibilidade para escutar os mais distantes sussurros. Sim, era uma jovem mulher quem voava. E como ela sorria.

Também havia tristeza entre as nuvens. O conjunto de prédios da metrópole se apresentava perturbador e misterioso em meio ao breu. Ela sabia que milhares de corpos estavam depositados naquelas construções. Amontoavam-se, distribuídos em andares, até ficar à altura da metade do céu. Sem jamais experimentarem os prazeres de voar. As paredes, o cimento, o tijolo e o concreto impediam que o vento atraísse novos passageiros.

Uma lágrima costumava escorrer pelo rosto dela naqueles momentos, e não raro a gota que descia para a terra era um prenúncio de chuva. Transformava o choro em riso quando a natureza a acompanhava no derramamento de água. Via os raios subirem, dançava com a música dos trovões e supunha que tudo aquilo era planejado por alguém. Gritava de felicidade. Fazia acrobacias. Esquecia-se de tudo e de todos.

Quando os primeiros raios de sol lhe embaçavam a vista, no entanto, era chegada a hora de retornar. Já começava a fazer mais barulho entre os homens do que longe deles. O dia derrotava a noite.

Ela expirava raso (devolvia o ar que tomara emprestado à realidade) e abria os olhos. Descia as persianas, travava a vidraça e sentia-se novamente sete andares acima, como mais um corpo amontoado. Caminhava até a cama na ponta dos pés, amarrotando o lençol rendado. Chegara a vez de ela dormir, saciada, enquanto vocês pensavam que acordavam.


Helder Júnior escreve (em tempos recordes) às quintas-feiras para o Sete Doses

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