A história a seguir é uma ficção. Qualquer semelhança com a realidade é uma pura constatação do óbvio sem valor de veracidade e sem possibilidade de processo.


Acorda no momento em que abre os olhos, sem despertador e sem pressa, coloca o terno de 20 mil dólares e pede um cappuccino para a empregada, que está com a cara costumas de incomodada por se sentir ridícula vestindo sua fantasia em branco e preto. Ele toma seu café, passa o olho na capa do jornal Valor Econômico e pede para o motorista esperá-lo. Já no carro oficial que um Presidente do Senado de seu porte tem direito, troca algumas palavras com seu condutor, um velho amigo de sua filha, e tira uma pequena pestana. Acorda com o veículo parado em frente ao seu local de trabalho. Ajeita o bigode e os óculos, desamarrota a camisa e respira fundo. Ao sair do carro, olha fixamente para a bunda de uma secretária que passa distraída. Sabe que será mais um dia duro de trabalho.

Ao entrar no Senado, passa pelas salas de todos os parentes que nomeara após ser eleito o presidente da casa: era a única forma de contato que mantinha com a família, não poderia deixá-los longe de seu olhar. Abraça-os fervorosamente, beija-os e demonstra um carinho exagerado e quase meloso. Conversa cerca de 10 minutos com cada um até chegar à sua própria sala. Senta-se na poltrona de veludo vermelho, ornada com pingentes dourados, e sente-se bem. Desde que assumira o Senado, era uma prática comum prostrar-se naquela cadeira e pensar em sua trajetória política. Fecha os olhos, morde os lábios e demonstra em suas feições o mesmo prazer que sentira ao observar a bunda da secretária.

Seu ritual só é interrompido pelo tilintar frenético do telefone. Do outro lado da linha, seu sobrinho e assessor tranquilamente lhe passa as últimas questões sobre a maré de denúncias contra ele:

– Olha, excelentíssimo, a oposição está pedindo sua cabeça, a imprensa está fechando o cerco também, mas o governo já declarou apoio. Só peço pra você não dar entrevista e continuar tocando sua vida normalmente. Deixa que a gente blinda o senhor aqui. Ah, duas boas notícias: arranjamos um protesto no Maranhão contra as acusações que o senhor sofre e a Academia Brasileira de Letras convida o senhor para homenageá-lo em uma tentativa de aliviar essa pressão. Já acertamos tudo, ficou até barato. Vai ser na próxima sexta, com ampla cobertura da sua emissora de televisão e tudo. O presidente da Academia, aliás, lhe mandou um abraço e perguntou quando vocês vão jogar squash juntos novamente.

Desliga, olha para o relógio e sai apressado para um almoço marcado com alguns empresários. Enquanto fartam-se, cercados por vinhos e massas, conversam sobre a estratégia política para evitar um possível afastamento. O Presidente, quieto, pensa na bunda da secretária. Enquanto escuta os murmúrios ditos pelos seus bajuladores, pede licença e se dirige ao banheiro. Tranca-se em uma das cabines, abre a braguilha da calça e, lentamente, começa a se masturbar. Cerra os olhos, fixa-se na bunda da secretária, e esboça a mesma expressão de prazer de quando se refestelara em sua cadeira dourada horas atrás. O processo é rápido. Se limpa com o papel higiênico, dá a descarga e olha para o relógio: 15h30min. Com os grossos bigodes impregnados de gotículas de suor, ajeita a gravata, observa-se no espelho, sai do toalete sem lavar as mãos e resolve que o melhor é ir para casa descansar e pensar sobre suas próximas estratégias políticas. Fora, como ele mesmo imaginara, mais um dia duro de trabalho.

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

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