Com uma sunga listrada em bege e azul desbotados, o velho sacolejava o corpo a cada passada à beira da piscina. Fazia dos azulejos molhados uma pista de dança; como se pisasse involuntariamente sobre as pedras mais escuras. Sua careca reluzia sob a luz do sol, com alguns cabelos grisalhos rebeldes nas laterais. Carregava consigo uma batida de maracujá, e o líquido era derramado à medida que ele avançava. As sementes da fruta já haviam alcançado o pulso direito.

Não sei por que, mas aquela cena se tornou insuportável para mim. Meu autocontrole, antes inabalável, agora era tão instável quanto a dentadura que ia para frente e para trás dentro da boca roxa e sorridente do velho. Tentei olhar para a direita. Não consegui. O barulho que o choque daqueles pés enrugados com o granito molhado provocava era um incômodo para os meus ouvidos e uma melancólica atração para a minha vista. Levantei-me da cadeira de plástico onde me sentara no início da manhã e postei-me diante do velho.

Foi então que percebi o burburinho causado pela minha atitude intempestiva. Duas senhoritas em trajes de banho curtos ergueram seus óculos escuros para ver o embate entre o velho e eu. Um rapaz que besuntava protetor solar nas costas da namorada estagnou. Quando ela reclamou, recebeu um cutucão nos ombros e um convite para se virar e também assistir à minha revolta.

O velho abriu um sorriso incomodado, pois estava obstruído pela minha imponente presença. Ele deu mais um passo adiante: o suficiente para derramar batida de maracujá nas minhas pernas e pés e eu passar a inalar o seu hálito azedo. Revoltei-me ainda mais. Meus pelos se eriçaram até as sobrancelhas e um ar frio repulsivo percorreu todo o meu corpo até a garganta; de lá, o nervosismo foi expulso com um grito molhado. Imaginei que o velho tremesse de medo. Não hesitei. Mostrei as palmas da mão e empurrei a barriga proeminente da minha vítima com toda a força possível. Ele cambaleou e ruiu para o fundo da piscina, de costas.

Agora, todos que rodeavam aquela redoma de água dirigiam os olhares para a antiga pista de dança do velho – um verdadeiro palco. Eu era o centro das atenções. As garotas em biquínis curtos me encaravam com expressão de desaprovação, mas, ao mesmo tempo, pareciam atraídas por mim. Uma delas chegou a piscar demoradamente o olho esquerdo, franzindo a bochecha corada. Já a namorada insistia para que o namorado fizesse algo contra mim. Ele gargalhava. Dois senhores tão velhos quanto o primeiro pigarreavam palavrões enquanto salivavam cerveja quente. Um grupo de senhoras, provavelmente esposas dos homens, fazia concha com as mãos para proteger a boca ao  comentar o ocorrido com feição de ira. Alguns religiosos se benziam. Estudantes de Direito analisavam as implicações jurídicas do meu ato hostil.

O velho nada disso podia ver. O impacto do seu corpo com a piscina deixara as costas vermelhas, arranhadas. Ele certamente havia engolido alguns mililitros da água, que agora estava amarelada por causa do maracujá. As sementes boiavam próximas à dentadura. A sunga também ameaçava abandoná-lo, fazendo com que metade da bunda branca e ossuda ficasse para fora. Começou a debater os braços de maneira estabanada, em sinal de desespero, enquanto era tragado pela piscina. Metros à frente, algumas crianças brincavam com uma bola de plástico diante do velho, que submergia de forma tão patética quanto quando bailava sobre o granito.

Os adultos também não pareciam dar importância para o velho. Preferiam me julgar, sem expor as suas peles já bronzeadas para fora dos guarda-sóis. A minha revolta provocara um acalorado debate nas mesas de plástico e espreguiçadeiras. Eu já sabia exatamente por que me enervava. Queria jogar cada um deles dentro da piscina, a começar pela madame que sujava o seu batom violeta quando engolia generosas porções de salgadinho industrial. Mas o que adiantaria? Se todos estivessem na companhia do velho, eu ficaria sozinho e poupado da minha fúria. Eu também merecia a ruína, evidentemente. Observei mais uma vez o senhor que se afogava e decidi salvá-lo. Mergulhei, agarrei o corpo que me temia e clamava por piedade, e o arremessei para fora da água.

Ouvi um e outro aplausos. Logo, as garotas de trajes curtos perderam o interesse por mim e pelo velho e pediram mais uma bebida ao garçom, que equilibrava uma pesada bandeja com maestria ao correr pelo local. Os demais velhos resmungaram um pouco mais antes de iniciar uma animada partida de tranca. A namorada se virou para bronzear as costas no sol escaldante. Estudantes e religiosos procuraram outro assunto, então me senti absolvido pelas Justiças divina e terrena. E o velho que caíra me abriu um desdentado sorriso de agradecimento. Tentou retomar normalmente o seu trajeto à beira da piscina em seguida, ao encontro dos amigos ou do banheiro. Esboçou até alguns irritantes passos de dança.

Aquilo não ficaria assim. Mostrei as palmas da mão e empurrei a barriga proeminente da minha vítima com toda a força possível de novo. Ele cambaleou e ruiu para o fundo da piscina, de costas.


Helder Júnior escreve às quintas-feiras para o Sete Doses

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