Os passos lentos de Jairo atestavam o pesar que a gravidade adquire com o avançar da idade. Como fazia todas as tardes, flanava, cambaleante, pelas ruas arborizadas e movimentadas do Jardim Europa. Foram trinta anos de sua vida trabalhando naquela região e, depois de aposentado, andar por ali era como viver o passado, nublar o futuro e matar o presente. Observava as mansões imponentes e o entrar e sair dos carros importados das garagens. Prostrava-se, principalmente, em frente a uma casa na Rua Atlântica e ali deixava seus pensamentos nostálgicos desenrolarem-se.

Os altos portões brancos do casarão, sempre cerrados com cadeados e correntes grossas, emolduravam um jardim impecável, ornado por bromélias, lírios, cravos, margaridas e flores do campo: todas simetricamente espalhadas por uma área de mais ou menos 60 metros quadrados. Olhava para aquele jardim tão bem aparado e lembrava-se da época em que era ele quem cuidava daquele pequeno paraíso. Ao olhar com mais atenção para aquele mar de flores, observou, maravilhado, um único e solitário botão de rosa vermelha. Em destaque, balançava com o sabor do vento e anunciava a tempestade que se aproximava. Jairo abriu o guarda-chuva, olhou por mais alguns segundos e se dirigiu ao ponto de ônibus. Em pouco tempo, pingos grossos de água começaram a tingir o asfalto.

De volta à sua realidade – uma casa de um quarto na Zona Leste da cidade –, beijou a testa da mulher e ligou a televisão. A vida ociosa desmanchava-lhe o prazer pelas coisas, e o meio da tarde era o horário que mais lhe incomodava. Enquanto todos estavam ocupados com seus compromissos, ele e sua mulher se preocupavam apenas com o horário e o cardápio do jantar. A existência, desde que os filhos debandaram de casa, tornou-se enfadonha e chata. A morte, cada vez mais próxima, parecia o único objetivo concreto. Mas um simples comentário de sua mulher lhe despertou uma ideia:

– No mês que vem fazemos 45 anos de casados. Sabia?

Fingindo não prestar muita atenção para o que a mulher dizia, meneou com a cabeça em sinal de positivo e fingiu estar entretido com a televisão. Mas seus pensamentos iam longe. De súbito, lhe veio a ideia de presentear a mulher com a flor que ele vira aquela tarde na mansão da Rua Atlântica. Era o presente perfeito para fazer sua amada sorrir novamente. Uma flor como aquela iluminaria novamente seu lar e daria novo fôlego para os próximos últimos anos de matrimônio. A esperança encheu-lhe o peito de coragem.

No dia seguinte, ao conversar com o motorista de táxi que trabalhava em frente à sua casa – um velho conhecido que lhe prestava uma amizade quase terapêutica -, Jairo contou dos planos de roubar a “Flor dos Jardins”, como a apelidou carinhosamente.

– Que é isso, rapaz, virou moleque de novo? Vai roubar flor pra dar pra namorada? Bate na porta e pede a flor pro seus antigos patrões. Você mesmo diz que eles sempre foram gente boa.

– Você não entende – disse Jairo, saindo sem nem se despedir do amigo.

Os planos de Jairo eram bem claros. Na calada da noite, pularia o portão da mansão, arrancaria a rosa que se destacava no meio do jardim e iria embora. Entregaria a flor para a mulher no dia do aniversário de casamento com uma fita branca enrolada no cabo. Ele tinha um mês para arquitetar toda a operação, que apesar de simples era considerada por ele de alto risco. Comprou um caderno na papelaria e escreveu com letras vacilantes na capa vermelha: “PROJETO FLOR DOS JARDINS”. Descreveu ali os propósitos de sua missão, os motivos de se arriscar em tal empreitada e aproveitou para declarar seu amor pela esposa com um pequeno poema:

A Missão:

Romanticamente, como os bons e velhos amantes faziam, irei usurpar a rosa vermelha mais linda que já vi para presentear minha esposa. Farei isso um dia antes de nosso aniversário de matrimônio. Após Sofia dormir, sairei de casa portando dinheiro para o táxi, este caderninho e meu documento de identidade. Pularei o portão, arrancarei a flor e retornarei para minha casa. Acordarei Sofia, pois presumo que já terá passado de meia-noite, e entregarei a flor para ela com uma fita branca enrolada na base da copa com a seguinte montagem do texto “Para Uma Menina com uma Flor”, do poeta brasileiro Vinicius de Moraes:

“Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”

Os Motivos

Provarei meu amor por Sofia invadindo humildemente uma mansão de ricos para demonstrar a ela que o amor pode tudo. Vou provar a ela que o amor resiste ao tempo e a todos os descaminhos da vida. Não é pelo fato de viver apenas com uma aposentadoria tão pequena que não tenho o direito de entrar na mansão que um dia trabalhei e dar à minha esposa a flor mais linda da cidade. Não quero pedir mais nada a meus antigos patrões, não dependo deles, sou um homem livre que pode conseguir as coisas pelos próprios esforços. E vou conseguir aquela rosa. Sou um homem pobre, mas conheço de flores e sei que aquela é especial. Darei a rosa à minha menina e nossa relação voltará a ter fulgor como outrora. Creio nisso como creio no bom Deus.

Pequeno poema à Sofia

“Encontra-me no Paraíso, Oh Sofia

Seus cabelos me inebriam

Sua pele me fascina

Todos os dias eu insisto, Oh Sofia

Sua beleza é um desatino

E essa rosa eu lhe dedico”

Obs: Só entregarei o poema à Sofia se tiver coragem. Ainda não decidi.

Os escritos no caderninho passaram a ser rotina na vida de Jairo. Passava horas construindo frases e poemas de amor para Sofia, embrenhando-se em parques da cidade para ganhar inspiração da natureza. Visitava todos os dias a mansão do Jardim Europa, observando a rosa de longe, fascinado. Escrevia no caderninho tudo que sentia durante aqueles encontros.

Na noite do roubo, Jairo estava apreensivo. Após a mulher pegar no sono, vestiu um sobretudo negro da época de juventude, colocou um chapéu na cabeça e um cachecol pendurado no pescoço. Foi na ponta dos pés até o armário do quarto, pegou as poucas economias para pagar o táxi, colocou o caderninho de capa vermelha debaixo do braço e saiu.

Nervoso, pediu para o taxista lhe deixar na esquina da Rua Groelândia com a Colômbia, uma quadra antes da Atlântica. Com passos lentos e decididos, dobrou a esquina e chegou à porta da mansão. Tranquilamente, colocou o caderninho no bolso, observou a escuridão silenciosa do jardim e sem pensar muito pulou o portão com toda a dificuldade que sua idade avançada requeria. Devagar, com pés de algodão, caminhou pelo trilho de concreto que circundava as flores. Só ouvia o som do vento frio e forte que soprava. Observou a flor, que, solitária, pendia de um lado para o outro ao sabor do vento. Estava derramada em escuridão. Com cuidado, embrenhou-se no meio das flores e arrancou o cabo da rosa com um puxão seco e certeiro. Parou por um instante, hipnotizado por sua beleza. A olhava, enternecido, como um jovem que observa pela primeira vez a nudez muda de uma mulher. Minutos se passaram e Jairo prosseguia estancado feito uma estátua no centro do jardim, olhos úmidos e vidrados. Vozes surgiram de dentro da casa e se somaram a latidos de cães. Apesar das luzes que se acenderam no interior da mansão, o breu ainda dificultava a visão e o olfato se tornava o sentido mais aguçado, atingido em cheio pelo perfume das flores. Passos apressados chocavam-se contra a grama úmida pelo orvalho da noite. Dois estampidos, sobrepondo-se um sobre o outro, ressoaram no ar. O segurança, ofegante, observou um vulto se inclinando em direção ao colchão de flores que os cercavam. O vento, furioso, folheava enlouquecidamente as páginas de um caderninho vermelho caído ao lado do suposto ladrão. No ar, pétalas de rosa levantavam vôo e bailavam desesperadas pelos arredores do jardim. A lua cheia – romântica e melancólica – iluminava tudo.

Título em homenagem à canção “O Velho e a Flor”, de Vinicius de Moraes, Toquinho e Bacalov. A música e a letra:


Por céus e mares eu andei

Vi um poeta e vi um rei

Na esperança de saber o que é o amor

Ninguém sabia me dizer

E eu já queria até morrer

Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho

É o espinho que não se vê em cada flor

É a vida quando

Chega sangrando

Aberta em pétalas de amor

André Toso escreve para o Sete Doses aos domingos

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