O Ser Inexistente optou pela invisibilidade social. Cansado de gritar sem ser ouvido, decidiu na última semana morar nas ruas da cidade. Encontrei-o embaixo do Minhocão, embriagado e sozinho. Pareceu-me, à primeira vista, que o maior especialista sobre o nada estava realmente louco, completamente fora de si. Conforme fomos conversando, porém, percebi que ele mantinha suas contradições coerentes e bem compatíveis com os sentimentos humanos. Percebi também que eu estava diante de um sábio incompreendido pela sociedade e por si mesmo, um homem perdido em suas próprias verdades e em sua incessante busca pela sinceridade dilacerante. O Ser Inexistente estava em seu lugar natural: na rua, sem familiares, sem emprego, sem bens e sem esperanças. Encontrava-se no local onde nasceu para estar, onde não precisaria de máscaras, a única maneira de não ser ele mesmo. Bêbado, ainda excitado pela sua nova condição, falou dos motivos que o levaram a morar na rua, de seu plano de enfim escrever um livro e, após se negar a continuar a entrevista, iniciou um palavrório sem fim sobre a ideia do amor. Terminou a entrevista, de forma comovente, falando sobre a tristeza.

O Ser Inexistente faz carinho em um vira-lata: "Sinto que mesmo o cachorro deitado ao meu lado não me enxerga. O triste de morar na rua é isso: todo mundo finge que não te vê"

O que o senhor quer provar morando na rua e fazendo esse jejum? O que está escrevendo neste caderno?

Quero escrever o romance do nada. Quero mostrar a mais secreta das suspeitas humanas: a de sua própria inutilidade. Quero insinuar que a religião do trabalho, em seus valores mais altos, é também esporte. Quero esmurrar as hipocrisias.

Todos dizem que o senhor enlouqueceu de vez. Tornar-se um mendigo é realmente a saída para sua vida? Por que não se adéqua à realidade?

Eu não aguento mais. Estou mais lúcido do que nunca. Veja, veja minha lucidez, ela nunca foi tão nítida! Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade. Eu não quero me proteger da realidade, quero vivê-la com toda a minha fome pelo mundo.

Mas todos precisam fazer isso, senhor… É a vida.

Que todos façam, eu não quero. É uma escolha. Os piores bandidos se vestem de terno, são limpos e bem apessoados e ninguém os chama de loucos. E depois de fazer todas as barbaridades que fazem, levantam-se, tomam banho, cobrem-se de talco, perfumam-se, penteiam-se, vestem-se, e assim progressivamente vão voltando a ser o que não são. Todo mundo sabe que é assim e ninguém os chama de louco. Por que eu sou louco? Vamos, responda-me! Por que incomoda tanto as pessoas o fato de que eu não quero seguir regras sociais estabelecidas. Me deixa fazer o que eu quiser! Você tem ciúmes do meu desapego à felicidade, essa é a verdade.

Cada um que decida então, certo?

Decide nada. O povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe. Precisamos ensiná-lo.

O senhor não tem fé?

A beleza da fé não está em crer, mas em buscar crer. Assim, vejo certa beleza também na tentativa de crer nessa fé laica chamada razão.

O senhor deveria canalizar seus esforços em fazer o bem e não em ficar aí largado, escrevendo um romance sobre o nada…

Todo o meu esforço canalizo para a vida. Não para o equilíbrio, não para as certezas. Caminho suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise tê-la. Esperança em quê? Em remédios que curem? Em poemas que se dão de mão em mão? E as cartas sem resposta? E os becos sem saída? E a nova hipocrisia? E o Deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina? E a África? E a América Latina?… E todas essas universidades e tantos analfabetos?… Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém. Somos todos culpados.

E sua terapia, não funcionou?

Eu quero que o Freud vá tomar no cu, aquele velho maldito! Ele descobriu algo que deveria ser enterrado para sempre. O ser humano nunca deveria mexer em sua infância. Nunca! É lá que vivem os monstros. Sabe aqueles monstros que imaginamos na infância? Eles existem de verdade e é melhor não conhecê-los. Nada, nada mesmo, é mais assustador que isso. Os seres humanos não têm jeito e aquele velho louco só descobriu uma forma de provar isso na teoria. Qual a vantagem de tratar as dores da alma se elas nunca cicatrizarão?

E o que você tem feito aqui na rua? O senhor nem começou a escrever seu livro. Não fica entediado?

Ultimamente, dei para falar sozinho. Não falo baixinho não, falo sozinho mesmo, principalmente à noite, deitado e tentando entender o que se passa comigo. Falo alto e chego a ficar com medo. Medo de quê? Medo de entender quem fala com quem, quando falo sozinho. Eu falo e ouço ao mesmo tempo. Mas, quem ouve o que eu falo? Por exemplo, se eu disser no escuro: ‘Onde eu errei naquele amor?’. Tenho medo de que alguém me responda. Uma coisa que me intriga é a forma de falar sozinho; devo falar com todos os ‘ss’ e ‘rs’, ou posso falar desleixadamente, pois afinal de contas eu sei o que estou falando? Aliás, nem preciso falar alto. Basta pensar entre resmungos, gemidos e risos abafados; mas, aí me assalta outro medo: há dentro de mim uma terceira pessoa ouvindo o diálogo de mim comigo mesmo? Mas não resisto aos clamores da norma culta e tento falar com alguma qualidade literária para mim mesmo. Assim, aumenta minha angústia. Uma pessoa fala – que sou eu –, outra pessoa ouve – que sou eu –, e uma terceira pessoa julga a qualidade do meu discurso, que também sou eu. Estarei maluco?

Sim, acho importante o senhor racionalizar e concluir que está louco. Não acha?

Vá à merda! Não quero mais dar entrevista para o seu blogzinho de merda. Acabou! Vai embora, me deixa em paz comigo mesmo.

Mas o senhor não consegue ficar em paz nem consigo mesmo. Por onde o senhor for o problema vai junto…

Chega! Acabou a entrevista. Some daqui!

O senhor tem saudade da sua mulher que morreu. Confesse. Toda sua personalidade não passa de um clichê: a falta da mulher amada. O senhor é um homem como qualquer outro.

Você é um cretino, garoto. Minha mulher está morta, não vai voltar. O desespero de perdê-la eu aguento. O que me apavora mesmo é a esperança. Se ela tivesse me deixado e eu ainda tivesse esperança de tê-la de volta isso sim me consumiria. É melhor ver a mulher amada morta do que longe (tenta disfarçar as lágrimas). E, sim, diabos, sou um homem comum. A única diferença é que eu não existo.

Caso sua mulher estivesse viva, o que faria por ela?

Tudo! Absolutamente. Um conselho, garoto: atira para o mar as tuas coisas, abandona os teus pais, muda de nome, esquece a pátria, parte sem bagagem, fica mudo e ensurdece, abre os teus olhos. Se o teu amor não vale tudo isso, então fica onde estais:  gelado e quieto. O amor só sabe ir de mãos vazias e só vale se for o único projeto.

É, mas esse projeto quase nunca dá certo…

Só uma coisa no amor não tem jeito: é ter medo de amar.

Os casamentos não dão certo. Ou desgastam-se com o tempo ou sucumbem na passividade.

Vou adequar um dos dez mandamentos. Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão. Que as ondas do mar passeiem entre as praias de vossas almas. Enchei o cálice um do outro, mas não bebei do mesmo cálice. Dai de vosso pão um ao outro, mas não comeis do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho, como as cordas do alaúde que, separadas, vibram em harmonia. Dai vossos corações, mas não os confiai um ao outro, pois somente a providência divina pode contê-los. E permanecei juntos, mas não em demasia: pois os pilares do templo erguem-se separados, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

O senhor só fala utopias…

É… Vivo sonhando acordado. Eu, quando na sua idade, queria mais era destruir tudo mesmo. Era parecido com você. A sina do fogo é soprar cinzas. A sina do jovem é sobrar nas cinzas. Vocês garotos são capazes de aniquilar um amor apenas para ver o que repousa em seu fundo. Depois choram dizendo que o amor é impossível, um fracasso. São vocês mesmo que fazem questão de destruir qualquer chance de amor. O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade. Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.

O que falta aos jovens saber?

Vocês deveriam saber que constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo. Mas chega. Estou cansado. Me deixe. Só o silêncio pode responder às perguntas. A vida é muito mais surpreendente do que conseguimos entender. Caminhemos sem perguntas como os suicidas que jamais indagam a profundidade do abismo.

Você está cada vez mais triste.

Minha mãe está cada vez mais triste, minha irmã está cada vez mais triste, meu pai está cada vez mais triste – embora esteja mais alegre também -, minha sobrinha está cada vez mais triste e até meu cunhado está mais triste. Se minha avó estivesse viva estaria triste. Minha avó que está viva está muito triste, meus tios disfarçam, mas é evidente que sentem o rosto murcho de tristeza. Sobre os meus primos prefiro não falar, passam as noites definhando sob a lua e meu avô só não está mais triste porque está morto e quando estava vivo era o homem mais triste deste mundo. Se eu tivesse um filho ele seria triste, se fosse alegre ficaria triste e mesmo que odiasse sua tristeza nunca seria nada mais que triste. Você é triste, quem está lendo é triste… somos todos tristes.

As opiniões do Ser Inexistente não passam de recortes de citações de artistas, pensadores, trechos de livros, letras de música, diálogos de filme e palavras de qualquer tipo de pessoa que tenha algo a dizer. Edito-as e coloco aqui em formato de entrevista jornalística. Tentarei sempre encaixar amigos, conhecidos e desconhecidos que falaram ou escreveram algo que me marcou. Portanto, fique esperto para ver se o seu nome não aparece por aqui.

Compuseram o Ser Inexistente nesta terceira entrevista: Julio Cortazar, Hannah Arendt, Cruzeiro Seixas, Gilberto Gil, Mario Sabino, Julian Barnes, Arnaldo Jabor, Renata Pallottini, Millôr Fernandes, Dorival Caymmi, Paulo César Pinheiro, Kahlil Gibran, Nelson Rodrigues, Fabricio Carpinejar, Albert Camus, José Paulo Paes, Fabrício Corsaletti

Para ler a primeira Entrevista com o Ser Inexistente CLIQUE AQUI

Para ler a segunda Entrevista com o Ser Inexistente CLIQUE AQUI

Para ler a terceira Entrevista com o Ser Inexistente CLIQUE AQUI

André Toso escreve aos domingos para o Sete Doses

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